Marine Le Pen, a senhora que se segue

Marine Le Pen, French National Front (FN) political party leader, gestures during an FN political rally in Frejus, France, September 18, 2016. REUTERS/Jean-Paul Pelissier/File Photo - RTX2SQTR

Texto: Carla Bernardino

Até maio, a Europa vai estar a tremer e não é de frio. A líder de extrema-direita francesa, Marine Le Pen, surge como a candidata que reúne mais intenções de votos às presidenciais francesas, com garantia de passagem à segunda volta. Quem é a mulher que vê em Donald Trump e Putin aliados e que pode chegar ao Eliseu?

“Com Trump, com Theresa May, com Putin e com o grupo de Visegrad, já não me sinto mais isolada”. A frase foi dita por Marine Le Pen, presidente do partido de extrema-direita francês Frente Nacional (FN), num programa televisivo de debate político, e replicada na sua rede social Twitter, na sequência da eleição de Donald Trump nas presidenciais dos Estados Unidos da América pelo Partido Republicano.

Com aquela declaração, Le Pen definiu, aqueles que considera serem os seus aliados: para lá do presidente norte-americano eleito, a líder nacionalista francesa revê solidariedade ideológica na primeira-ministra britânica conservadora Theresa May – que têm em mãos o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, conhecido por Brexit –, no presidente russo e num grupo que junta a República Checa, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia. Estes países, integrantes do Visegrad, definem-se, lê-se no site, como nações “que partilham heranças, valores e raízes comuns culturais e intelectuais que pretendem preservar e futuramente fortalecer”.


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Certo é que a eleição do milionário Donald Trump, tida durante todo o processo como improvável, veio imprimir novo fôlego à extrema-direita francesa, que vê nesta mudança uma alteração ideológica no planeta. “Os americanos mostraram que o mundo muda. O que aconteceu nesta noite não é o fim do mundo, mas de um mundo. A eleição de Trump é uma boa notícia. Se ele cumprir as suas promessas, isso é uma boa notícia para a França. Numa democracia, é o povo que decide e dá a legitimidade. Não há governo digno se ele não governa pelo e para o povo. Essas decisões democráticas enterram o mundo de ontem”, afirmou Le Pen. Portanto, para Marine, o trabalho agora é simples: “Cabe-nos transformar a vitória ideológica em vitória política”, declarou no pequeno ecrã e replicou na sua conta de Twitter. E é isso mesmo que ela quer atingir no próximo mês de maio, nas eleições presidenciais francesas.

Mas quem é e o que é que defende esta mulher, de 48 anos, que se candidata às presidenciais francesas e sobre quem as sondagens, a seis meses do sufrágio, indicam que possa chegar à segunda volta das eleições para o Eliseu? Se as ganhar, será a presidente de França.

A filha querida afasta o pai
Filha do líder e fundador da FN (criado em 1972), Jean-Marie Le Pen, é a mais nova de três filhas e não era, nos planos do pai, a sua sucessora política natural. Porém, o mundo dá muita volta. Advogada de formação – que começa por participar nas atividades do partido aos 13 anos e, aos 30, passa a integrar a estrutura da FN, na área dos serviços jurídicos – participa politicamente nos projetos do pai. Tanto que, aos 42 anos, acaba por tomar o pulso à FN. Estávamos a 16 de janeiro de 2011 quando Marine Le Pen assumiu a presidência do partido, após votação interna do partido, assumindo a missão de “desintoxicar” a FN das ideias mais radicais.

Marine tem trilhado um caminho diferente do do pai, sobretudo depois de, em agosto de 2015, o ter afastado e de, em conjunto com a direção da FN, o ter expulsado do partido na sequência de declarações polémicas antissemitas e xenófobas. Recorde-se que Jean-Marie reiterou publicamente que as câmaras de gás dos campos de concentração nazis eram “um pormenor” da Segunda Guerra Mundial e defendeu o regime colaboracionista de Vichy.

A líder apresenta-se mais moderada que o antecessor, mas defende, e tem conquistado o eleitorado por isso mesmo, uma retórica anti-sistema, sendo contra a globalização, criticando a União Europeia, mostrando-se anti-minorias e promovendo não só um controlo da imigração como um respeito e uma luta pela identidade francesa. Um discurso que, aliado à situação económica débil, aos atentados terroristas e ao crescente número de refugiados a instalar-se no país, tem conquistado adeptos entre os jovens, os operários e os habitantes das regiões mais pobres.

O percurso político de Marine começou em 1993, quando entrou nas eleições legislativas Paris, e tem sido marcado por poder e influência crescentes. Em 1998, conquistou o seu primeiro mandato político como conselheira regional do Nord-Pas-de-Calais, cargo que manteve até 2004. Nesse mesmo ano, já como uma das oito vice-presidentes do partido e depois de ter dado nas vistas politicamente nas legislativas de 2002 por via das intervenções de apoio ao pai, chegou ao

Conquistar França e Europa
Em 2012, e à frente dos destinos da FN, candidatou-se às eleições presidenciais e conquistou um destacado terceiro lugar na primeira volta do sufrágio, com 17,9% dos votos. Seria François Hollande a sair vitorioso dessas eleições, com 28.63%.

Sob o pulso forte de Marine Le Pen, a FN foi o partido mais votado nas Europeias de 2014 e obteve 25% dos votos nas eleições Regionais de março de 2015, meses antes de afastar o seu pai do partido. Com este resultado, concentrou sobre si e sobre os seus ideais todos os olhares de França e da Europa.

Agora, mais forte do que nunca – e com a sobrinha Marion a apresentar-se já quase como herdeira legítima destes ideais – , todas as sondagens apontam, com uns confortáveis 29 pontos percentuais de intenções de voto, Marine Le Pen como candidata favorita à primeira volta nas Presidenciais de 2017, com passagem garantida à segunda volta. “Hoje, os Estados Unidos, amanhã, a França. Bravo América!”, escreveu a líder nacionalista no Twitter, no dia seguinte às eleições norte-americanas. Será? As respostas chegam em maio.

Vida privada
Fez no mês passado 40 anos que Marion Anne Perrine Le Pen, aos oito anos de idade, sobreviveu a um ataque bombista que tinha como principal objetivo matar o pai, Jean-Pierre. A família dormia descansadamente num apartamento, no quinto andar, quando 20 quilos de explosivos rebentaram no exterior do prédio, situado do 15º bairro de Paris.

Contas feitas, ficaram destruídos 12 apartamentos e, anos mais tarde, Marine declarava que algo também tinha mudado para ela desde aquela noite de 2 de novembro. “A partir do momento em que acordei com o rebentamento, nunca mais fui uma criança como as outras”, escreveu, em tempos, a atual líder nacionalista. A mãe, Pierrette Lalanne, que deixou a família quando Marine tinha 16 anos, fez um ensaio fotográfico nu para a Playboy com o claro propósito de envergonhar o marido. Marine Le Pen nunca se pronunciou em relação a este caso.

Aos 24 anos, Marine concluiu a sua formação em Direito Penal pela Universidade de Paris. Como advogada chegou a defender membros da FN de acusações de violência física e verbal. Em 1995, salvou um imigrante argelino, Nourredine Hamidi, da expulsão do país. O que poderia configurar uma incoerência com o que defendia politicamente, foi justificado por Marine Le Pen com o argumento que “assistiria gratuitamente os imigrantes sempre que eles fossem injustamente tratados”.

Tinha 27 anos quando se casou pela primeira vez. O marido, Franck Chauffroy, era quadro do partido, mas o casal divorciava-se mais tarde, após terem tido três filhos: Jehanne, atualmente com 17 anos, e os gémeos Louis e Mathilde, de 15. Marine Le Pen voltaria a casar-se mais tarde com outro elemento do partido, Éric Iorio. Desde 2010, que o vice-presidente da FN, Louis Aliot, é seu companheiro. Segundo as várias biografias que foram sendo traçadas sobre Marine Le Pen, a líder é amante de desportos náuticos, de desportos de inverno, em particular de ski.

A moda como mensagem
A imagem sempre foi uma forma de comunicação e Marine Le Pen, segundo os analistas da especialidade, soube sempre tirar mais-valias desse tipo de mensagem. A imprensa francesa chegou mesmo a descrevê-la como “Madame Tout Le Monde”(Senhora Como Nós, em tradução livre) quando a líder, em setembro deste ano e a propósito da rentrée política, visitou Brachay, no nordeste de França, uma pequena localidade francesa que tem a particularidade de concentrar o maior número de eleitores da FN (72%).

De jeans ou calças mais soltas, de camisas ou camisolas com decote em V e de manga curta – mostrando braços vigorosos – e de mala ao tiracolo, nenhuma das opções parecia, à partida, ser a mais recomendável para quem quisesse chegar à glamorosa presidência francesa. Mas Marine não se acanhou. Escolheu aquela indumentária – e tem feito opções muito semelhantes ao longo da carreira política – procurando diluir-se ao máximo no seu eleitorado, promovendo uma identificação comum.

Recuando no tempo, os analistas voltam a 2012, aquando das eleições presidenciais, para demonstrar o gosto de Le Pen pela simplicidade. E quem sabe, a eficácia. Nessa altura, a presidente da FN surgiu um pouco despenteada. Chegou mesmo a estar no Parlamento Europeu com uma espécie de clipe azul-turquesa no cabelo. Um look negligé que parecia cuidadosamente preparado. Um dos jornalistas do Le Monde, citado pelo blogue Spectator, chegou a considerar que esta atitude tinha o propósito de demonstrar que Le Pen “estava tão confortável no mundo da política como na sua casa-de-banho”. Certo, é que no Eliseu ela sentir-se-á, seguramente, à vontade.

 


Propostas e ideias de Marine Le Pen

1. França “deve armar-se contra o terrorismo islâmico” e deve expulsar os radicais islâmicos

2. “Nem mais um migrante deve ser recebido em França porque além do mais vêm terroristas com eles”

3. Saída do Euro, regresso ao Franco, a moeda francesa anterior

4. Referendar saída da França da União Europeia

5. Protecionismo económico: “empregos em França para os franceses”

6. Aumentar €200 os salários mais baixos

7. Antecipar a reforma dos 62 para os 60 anos

8. Reinstaurar a pena de morte

9. Retirar a nacionalidade francesa a todos os franceses com dupla nacionalidade que saiam do país para participar em guerras

10. Maioridade penal a partir dos 13 anos

11. Mais do que proibir o aborto, defende medidas que convençam as mulheres a escolher não o fazer

12. Incentivo à natalidade

13. Revogar a lei que permite o casamento homossexual

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