O que é o feminino hoje?

Texto: Carla Macedo, editora executiva do Delas.pt

“O que é o feminino hoje?” A pergunta foi-me feita há pouco tempo, depois de uma conferência das Chicas Poderosas em que apresentámos o Delas.pt. Tínhamos mostrado os números das audiências do nosso site de informação para mulheres e com eles conseguíamos perceber que os interesses das nossas leitoras são muito, muito diversos. No top das notícias mais lidas tínhamos e continuamos a ter os cuidados de beleza, os guias práticos para usar a moda, as notícias da atualidade que envolvem protagonistas femininas e direitos das mulheres e, claro, a informação que é útil para o dia a dia – o artigo que fizemos sobre a forma como o orçamento de Estado influenciará a vidas das famílias em 2017 é um exemplo de sucesso de visitas.

Fomos formatadas demasiado tempo, nós mulheres e nós as fazedoras de títulos femininos, e por isso fomos postas em caixinhas. A informação relevante não era chamada para as revistas para mulheres (seria mesmo assim?) e o universo jornalístico feminino foi ficando enclausurado no que muitos apelidam ainda hoje de fútil. Claro que “ninguém chama fútil a um homem que passa horas a falar de futebol”, escreveu Jane Bruton quando era diretora da revista Grazia UK, “mas preocupar-se com a máscara de pestanas que vai usar é visto como superficial”.

A informação tem vários níveis de complexidade. Este site que completa agora um ano e a revista que dá origem a este microssite são bom exemplo disso. Temos reportagens, entrevistas, artigos de comportamento e listas úteis. Acreditamos que todos os formatos são importantes e que todos os assuntos contam para a nossa formação enquanto mulheres.

E depois o detalhe mais fútil para muitos pode ser super útil para outros tantos. Sabemos que a maquilhagem, a forma como nos vestimos, o corte de cabelo que temos ou o carro que conduzimos passam mensagens sobre quem somos e o que queremos. Podemos ignorar esta informação ou devemos usá-la a nosso favor? E devemos detê-la de forma egoísta ou transmiti-la de maneira percetível e com isso ajudar a reduzir as desvantagens das mulheres no acesso aos empregos, aos salários iguais, aos cargos de chefia? Não estou a falar de formatar outra vez mas de dar informação útil para que cada mulher possa usar, com o seu sentido crítico, da forma que lhe for mais conveniente.

Quanto à informação relevante nas revistas femininas eu diria que é impossível considerar irrisórios artigos sobre violência doméstica, sobre cancro da mama, sobre a libertação sexual das mulheres, sobre contraceção, sobre anorexia, sobre a mudança dos papéis de género ou a alteração dos ideais de beleza… Mas eu sou suspeita, é verdade.

A pergunta continua a repetir-se na minha cabeça. “O que é o feminino hoje?” Continuo a dizer “Não sei.” Somos demasiado diferentes umas das outras e temos um mundo se possibilidades e de vontades à nossa frente para que eu consiga fechar numa caixa bem selada essa definição. Não é cabelo curto nem comprido, não é ler muito ou cozinhar, não é ter filhos ou não os querer, não é ter uma carreira esplendorosa ou guiar um carro pequenino, nada disto define uma mulher, nada disto lhe retira feminilidade.

Aquilo que sei, aquilo que respondi nessa conferência é que devemos agradecer todos dias viver neste espaço mental que é Portugal. Um país em que nascer biologicamente mulher não nos põe em risco de vida, não nos obriga a sermos mutiladas, nos permite estudar e trabalhar, nos deixa sermos o que somos do ponto de vista sexual, religioso e político. A nossa obrigação enquanto mulher neste País é fazer com que a igualdade continue a avançar (e talvez isso seja para mim ser feminina, mais do qualquer outra coisa) e que a liberdade seja para todos sem exceção. A informação para todos é essencial nesses caminhos.

 

Fotografia de destaque: Mango