Muçulmanas em Portugal: quem são e como vivem

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Texto: Ana Tomás

Hijabs e habayas da Dolce & Gabbana, trajes muçulmanos na Semana de Moda de Nova Iorque, burkinis esgotados na Marks & Spencer de Londres e proibidos nas praias de França, atletas de cabeça coberta nos Jogos Olímpicos. A moda para muçulmanas alimentou polémicas sobre a condição feminina este ano mais do que nunca. E em Portugal? Como se sentem as mulheres que professam o Islão e vivem entre nós?

Genabu Baldé Candé apresenta-se sem qualquer sinal exterior que nos diga que é muçulmana. O cabelo apanhado, sem lenço a cobri-lo, dá destaque ao rosto descoberto, emoldurado por um par de argolas que pendem das orelhas.

Porque é outono, veste calças, uma camisola de gola alta e um casaco comprido preto, que substituem o traje muçulmano da Guiné-Bissau, de onde é oriunda. Esses conjuntos de vestidos longos, com padrões ou cores fortes, e lenço a condizer para tapar a cabeça e parte do pescoço, usa-os a partir da primavera e ao longo do verão. “Gosto e identifico-me muito”, diz esta assistente social, que se licenciou no Brasil e vive em Portugal há seis anos. Genabu é muçulmana sunita, o ramo mais representativo do Islão, e também o mais predominante em território nacional.

Quando o tempo arrefece, as idas à mesquitas, as cerimónias religiosas ou representações do mesmo teor são os contextos que a levam a tirar do armário os trajes tradicionais. Nos restantes dias veste-se de forma que apelida de “normal”. Ainda assim, traz sempre um lenço na mala para o caso de ir à mesquita, explica-nos enquanto os seus lábios esboçam um sorriso orgulhoso pintado a batom rosa forte.

A maneira como se veste é, portanto, apenas um acessório a uma vivência religiosa que a acompanha desde sempre e que vai muito além disso. “Nasci numa casa de familiares todos muçulmanos, pratico a religião, não a 100%, mas faço praticamente tudo o que é obrigatório”. Com isso quer dizer que faz que manda o Alcorão, o livro sagrado da religião muçulmana. Genabu reza todos os dias, cinco orações diárias, nos horários estabelecidos, que cumpre o Ramadão e que apoia pessoas necessitadas, que não come carne de porco, nem bebe bebidas alcoólicas.

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Fatema é muçulmana e originária da Líbia. Está em Portugal há cerca de seis anos e usa sempre o hijab. Mas nem sempre foi assim. Ao Delas, explica porque é que esse símbolo islâmico a passou a acompanhar todos os dias.

Genabu conseguiu sempre manter essas práticas nos diferentes países onde esteve, mas reconhece que as foi moldando à realidade vivida em cada um deles. “Se estou a trabalhar às 14h não consigo rezar. Quando regresso a casa faço as rezas que não fiz no horário previsto. A religião permite isso”, diz, acrescentando que tenta ir à mesquita todas as sextas-feiras.

Adaptar-se ao contexto significa também respeitar crenças diferentes da sua. Por educação familiar, não só conhece as outras religiões como convive com elas. De tal forma que acha que entre os seus amigos, a maioria não será muçulmana. “Desde a Guiné-Bissau que convivo muito com católicos, com evangélicos, jeovás. No Brasil, a mesma coisa. Sempre tive curiosidade de conhecer as outras religiões, ver como são, as semelhanças e diferenças, e a partir daí sempre tive amigos de várias crenças e convivo muito bem. O que não faço, não faço, e respeito o que as outras pessoas fazem.” No seu grupo de amigos, há igualmente uma mistura de nacionalidades, mas não distinções de género. “Até digo que tenho mais facilidade em fazer amizades com homens do que com mulheres”, refere.

Fatema Ammar Elhenshiri, tem 45 anos e é natural da Líbia. Ao contrário de Genabu, não tem amigos do sexo masculino, segundo nos justifica, por uma questão de religião, e também pela sua própria personalidade. “Colegas de trabalho, ok, mas amigos para sair, ir a um restaurante ou à cafetaria, não”. É um dos poucos limites que traça e uma das poucas diferenças culturais a que não se habituou desde que veio para Portugal, há quase seis anos.

A primeira coisa que estranhou quando chegou ao país foi a comida, mas o destino trocou-lhe as voltas e quis que arranjasse emprego como cozinheira em Leiria, onde atualmente vive com o marido e a filha de 14 anos. Hoje, em casa, faz muitas das sopas portuguesas que aprendeu a cozinhar no trabalho.

Essa é uma parte da “aventura”, como gosta de chamar ao que a vida lhe tem reservado desde que deixou o Egito, fugindo da insegurança e instabilidade que se seguiram à 'Primavera Árabe'.

Lá, Fatema, que é licenciada em Língua Inglesa e Interpretação, era professora e intérprete numa organização das Nações Unidas para refugiados, onde, além do inglês, ensinava árabe. Paralelamente, presidia a uma associação de apoio a mulheres e crianças, e com os refugiados era muitas vezes chamada para traduzir e fazer de intérprete em casos complexos e delicados: mulheres vítimas de violência doméstica, de abusos sexuais, ou crianças maltratadas e traumatizadas com a guerra. “Fazia um trabalho importante no Egito. Tinha uma vida grande!”, afirma, saudosa dos dias em que dividia o seu tempo entre a carreira e o ativismo.

Tudo isso ficou para trás e, chegada a Portugal, teve de começar do zero. Um período angustiante que a fé em Deus ajudou a superar. “Entretanto fui eu que vim como imigrante. Foi muito difícil no início, mas acabou por representar uma aventura para mim”, refere, numa mistura de português e inglês.

Depois de ultrapassar costumes, a barreira da língua e a burocracia para se tornar legal – agravados pelo facto ter obtido o estatuto de refugiada –, e já em Leiria, tentou reproduzir um pouco do que era a sua vida antes desta aventura portuguesa. Deu aulas de árabe, em regime de voluntariado numa associação local, mas precisava de fazer mais. “Quando cheguei cá o dinheiro acabou logo. Por isso queria trabalhar, qualquer que fosse o trabalho”.

Agora, com a vida mais estabilizada e mais adaptada à realidade portuguesa, o próximo passo que Fatema anseia dar é voltar a ser professora ou intérprete de árabe, mas, para já, isso tem-se revelado “muito difícil”. “Não sei se por causa do lenço, ou por causa da cor”, indaga. Realça, contudo, que, até ao momento, nunca se sentiu alvo nem de racismo, nem discriminada por ser muçulmana. “Quando cheguei aqui tive medo que acontecesse isso, porque no Egito via, na televisão, como os muçulmanos são acolhidos em Londres ou Paris, na Alemanha... Mesmo nos Estados Unidos.” A recetividade dos portugueses acabou por surpreendê-la. Às vezes, as pessoas abordavam-na na rua, desculpando-se, ao mesmo tempo, para lhe perguntarem de onde vinha e por que cobria a cabeça com um lenço. Também entre as amigas que entretanto fez em Portugal a questão surgiu, mas lida bem com ela.

“Não me aborrece, nem fico zangada. Se uma pessoa me perguntar pela minha cultura, por que razão não respondo?”, questiona, adiantando que as abordagens sempre foram cordiais e simpáticas.

Fatema acha mesmo normal a curiosidade dos outros, até porque, em algumas ocasiões, além do hijab, também veste habayas – vestidos compridos que cobrem todo o corpo. O que diz às pessoas que lhe perguntam por que usa o que usa é o mesmo que diz a nós: “por causa de Deus e por causa da cultura, mas sobretudo, por causa da religião”.

Antes do casamento vestia qualquer roupa, mantendo o cuidado de cobrir totalmente corpo. Combinava as gangas com blusas largas e de mangas compridas. Não usava sempre o lenço, mas começou a pensar na questão ainda em solteira. “Fazia oração, jejum, pagava a zakah [um dízimo pago pelos muçulmanos equivalente a 2,5% do seu rendimento], fazia o Ramadão e doações para ajudar pessoas que precisam de ajuda. A minha roupa era comprida, só que não tinha lenço e a minha família dizia: 'Fatema, por que não tens lenço? Fazes todas as coisas de um muçulmano'. Eu respondia: 'Não sei, talvez um dia'.”

A pergunta não a largou e, depois do casamento continuou a pensar nela. “Sou muçulmana, por que não uso o lenço, se Deus dá ordem para usar? Então decidi pôr. Eu gosto.”

Por escolha sua, hoje não sai de casa sem o hijab e, mesmo dentro dela, só não o usa na presença do marido ou do irmão. Se estiverem outros homens, mesmo que sejam primos, cobre a cabeça.

O cabelo descoberto é “considerado uma arma de sedução”, explica Teresa Almeida e Silva, especialista em Estudos Islâmicos e Investigadora do Instituto do Oriente, e usar roupas que não deixem transparecer as formas do corpo são traços comuns aos diferentes tipos de trajes islâmicos. Mas “não é obrigatório andar tapada da cabeça aos pés”. De resto, frisa a investigadora, “o Alcorão só diz que homem e mulheres têm de vestir-se com roupas que não mostrem as formas do seu corpo”.

Cobrir o cabelo ou o corpo e o rosto, a ponto de anular a revelação da identidade da mulher, é uma prática que havia na Penísula Arábica e que depois foi integrada no Islão, por alguns regimes que interpretaram aquela passagem “muito radicalmente” e instituíram a burka, por exemplo, “outros aconselham as mulheres a tapar o cabelo”, explica a académica. Em alguns países da Europa e da América do Norte, há muçulmanas que tapam o cabelo, mas vestem-se com roupas ocidentais, combinando o véu islâmico com um fato de casaco e calças. No Médio Oriente, as modas passam debaixo das habayas e insinuam-se na maquilhagem e nos acessórios, normalmente à vista. No Irão é obrigatório por lei usar o chador, e na Arábia Saudita a Habaya, “mas debaixo daquele manto negro, há roupas mais caras do que o nosso guarda-roupa todo junto”, exemplifica Teresa Almeida e Silva. Essas roupas só são mostradas na presença de outras mulheres ou de homens da família. Nunca na rua. As carteiras de marcas de luxo são o único pormenor que as “denuncia”. As que têm elevado poder de compra e sobretudo nos países mais ricos do Golfo Pérsico, usam quase exclusivamente marcas europeias, da roupa aos sapatos, dos acessórios às joias.

Genabu reconhece que , na sua comunidade, ainda se encara o cabelo coberto como uma obrigação da mulher sobretudo a partir do momento em que se casa. Ela, que tem 34 anos e já é mãe de duas meninas, uma com 12 anos e outra com seis meses, diz que nunca sentiu essa pressão do marido ou das suas famílias. Ao mesmo tempo lembra que o Islão tem várias vertentes e que vai havendo uma adaptação aos tempos e aos contextos onde habitam e circulam aqueles que o professam. “Cada país tem os seus hábitos e os seus costumes. O Alcorão é o mesmo, mas há interpretações diferentes.” A mesma lógica aplica-se a outros aspetos da vida das mulheres muçulmanas. Muitas vezes condicionados por questões de tradição, costumes ou de interpretação religiosa, estão , no entanto, também em evolução.

Em Portugal, nota Teresa Almeida e Silva, especialista em Estudos Islâmicos e investigadora do Instituto do Oriente, “as mulheres muçulmanas estão bem integradas na sociedade e podem, se quiserem, trabalhar e ajudar economicamente o agregado familiar”.

No caso das muçulmanas guineenses, Genabu, que é também mestrada em Sociologia, pela Universidade Nova de Lisboa, acrescenta que as circunstâncias estão a mudar a sua realidade. Com o desemprego na construção civil, onde costumam trabalhar os maridos, tem cabido às mulheres assumir “o papel de provedor da casa”. “Há um avanço na independência da mulher muçulmana, que começa a trabalhar, a procurar formações”, afirma. As guineenses trabalham, sobretudo, como empregadas de limpeza, domésticas internas e cuidadoras ou como cozinheiras. E também aqui Genabu nota uma evolução. “Algumas trabalham na área da hotelaria, e já vi outras a trabalhar na área das telecomunicações. Está mais diversificado agora”, sublinha, acrescentando que para isso tem sido decisivo o aumento da escolaridade das mulheres, outro sinal de evolução, acompanhado por uma alteração na própria mentalidade dos patriarcas. “Por norma, antigamente, os muçulmanos não deixavam as filhas estudar, só achavam importante que estudassem o Alcorão.” O que Genabu rejeita que tenha a ver com o que está escrito no livro. “Era mais a questão dos homens continuarem a dominar as mulheres”. Hoje refere que as próprias mulheres lutam pelo direito a estudar, tirar um curso e trabalhar. “Quando fui para o Brasil estudar, o meu grupo tinha duas mulheres muçulmanas, as outras eram católicas. Passados uns anos, fizemos um mapeamento e vimos que já havia 27 raparigas muçulmanas que estavam lá a fazer formação superior. E na Guiné-Bissau, as mulheres estão mesmo apostadas em estudar na universidade. Antes uma mulher ter o quarto ano já era muito. Sabem que o casamento é importante, mas que têm que ter a sua vida.”

As mulheres shiitas ismaelitas, outra das comunidades presentes em Portugal, têm, por norma formação superior e ocupam profissões mais qualificadas. Além disso, os ismaelitas “têm um poder económico muito superior aos sunitas” apesar de serem uma comunidade muito mais reduzida, explica Teresa Almeida e Silva. E há outras diferenças neste grupo, como “uma grande percentagem de casamentos mistos. Ou seja, membros da comunidade que se casam com um português ou portuguesa católicos.” Segundo a investigadora, “os shiitas têm outra maneira de conceber o casamento. Digamos que são um pouco mais flexíveis na escolha dos cônjuges para os seus filhos e filhas. Nos sunitas, embora também haja casamentos mistos, a taxa de conversão ao islamismo é superior”.

Entre os sunitas guineenses, a tradição de serem os pais a procurar e escolher a esposas dos filhos ainda impera. Genabu considera tratar-se de um costume e não de um ensinamento do Alcorão e a sua experiência é bem diferente. Conheceu o marido ainda na Guiné, colaboraram nas mesmas associações e a escolha foi sua. As suas filhas não foram excisadas, o marido não deixou.

A mutilação genital feminina é outra das práticas erradamente atribuída à religião. “Eu procurei essa justificação no Alcorão, e não há nada escrito sobre isso. São costumes”, refere, ao mesmo tempo que assinala o empenho da Guiné-Bissau no combate a esse ritual.

A polémica do burkini vista de um país cheio de praias
Em 2016 muito se falou da condição das mulheres muçulmanas, dos direitos que lhes estão vedados e da obrigação de terem de ocultar a sua identidade feminina debaixo do vestuário, alegadamente imposto pelos preceitos islâmicos. Os códigos de vestuário das muçulmanas, sobretudo em países ocidentais, marcaram de tal forma os últimos 12 meses, que a moda e os grandes nomes da Alta Costura não lhes ficaram indiferentes.

Fora das passerelles, a maneira como as muçulmanas se vestem produziu inúmeras discussões, debates, mudanças legislativas e polémicas. Se na Alemanha a discussão se tem centrado na burka e nas questões de segurança que o seu uso pode representar numa Europa em alerta contra o terrorismo do Daesh, França foi mais longe e proibiu, em várias praias, o uso do burkini, um fato de banho islâmico semelhante a um fato de surf com capuz. As imagens de uma mulher obrigada, pelas autoridades, a despir-se numa das praias do sul do país correram mundo e revoltaram muitos, muçulmanos e não só. Fatema foi uma dessas pessoas. “Ela não fez mal a ninguém. Porquê magoá-la? Porquê?”, questiona, salientando que se trata de uma opção pessoal que deve ser respeitada.

No Egito diz ser possível ver mulheres a usar desde burkinis a biquínis, dependendo das praias, da religião e da nacionalidade de quem as frequenta. Além disso, “há praias só para mulheres e, nessas, elas usam o que querem”. Para Fatema, cada um usar o que quer é o verdadeiro significado da palavra liberdade. “Pode-se fazer o que quiser, desde que não atinja ou choque o outro”.

Desde que está em Portugal foi algumas vezes à praia, mas não usou nem uma coisa nem outra. Em São Martinho do Porto, ficou “só a olhar o mar”. “Foi só um passeio, não sei nadar”, diz a rir-se. Em agosto, a família passou alguns dias no Algarve e recorda que a filha se divertiu muito, ainda que não faça tudo o que os outros adolescentes fazem. “Ela pode ir à praia e usa um fato-de-banho, mas não biquíni. E vamos a uma praia com pouca gente.”

Genabu teve no Brasil o primeiro contacto com a tradição balnear ocidental e a exposição do corpo da mulher nesse ambiente. O impacto foi grande. “No início, foi um choque brutal”. Seis anos e a abertura de espírito que a carateriza permitiram habituar-se mas não a ponto de usar biquíni. Quando vai à praia opta por uma espécie de meio-termo. “Não uso burkini, só fato-de-banho normal, às vezes calção.” A filha mais velha tanto usa fato-de-banho, como biquíni.

Teresa Almeida e Silva, sublinha que, em Portugal, as muçulmanas vestem-se como querem e usam peças como o hijab, “se assim o desejarem; não há qualquer regra que lhes imponha o seu uso”, nem qualquer proibição. Mas é inegável que se veem, nas ruas das cidades, sobretudo das zonas que concentram as maiores comunidades de muçulmanos, mais mulheres a usar o véu islâmico e de diferentes tipos (ver infografia em baixo). Essa mudança prende-se, na opinião da investigadora, “com o facto de as mulheres quererem afirmar-se como muçulmanas, ou seja, quererem exteriorizar a sua religião”. “O uso do hijab é uma forma de o fazerem. É uma escolha que parte da própria mulher; não é imposta”. Por outro lado, diz, há também a questão das modas, como há no Ocidente. “Como já não têm receio de usar o hijab, apesar de todos os medos em relação à comunidade muçulmana, há cada vez mais mulheres a usá-lo. E, de facto, em Portugal, temos visto cada vez mais jovens a usar o hijab”, salienta, lembrando que há países como a França, a Bélgica ou a Suíça que proibem o seu uso em alguns locais, como as escolas.

Os trajes islâmicos estão, contudo, longe de serem todos os iguais e a sua diversidade é reveladora das diferentes comunidades presentes em território nacional. “Nos países a sul do Magrebe, o Islão acabou por se misturar com as crenças locais. É um Islão diferente da Arábia Saudita. O traje das muçulmanas da Guiné e do Senegal é uma mistura do Islão e das práticas tribais”, ilustra a académica.

Do que Teresa Almeida e Silva conhece da realidade das muçulmanas em Portugal, são elas que decidem se querem usar ou não peças como o hijab, mas admite que, em termos genéricos, nos preceitos muçulmanos “há uma maior imposição na questão do vestuário para a mulher do que para o homem, sem dúvida”.

Educar filhas muçulmanas num país como Portugal
Tanto Genabu como Fatema têm filhas a tornarem-se mulheres num país onde a cultura dominante coloca desafios ao caminho que a religião lhes traça. A escolha do vestuário, que nessa fase já é, frequentemente, motivo de discórdia entre pais e filhos, aqui é-o muito mais.

Nas festas religiosas importantes, como o Ramadão ou o Tabaski, a filhas mais velha da guineense usa trajes muçulmanos, mas no dia-a-dia não se distingue das outras meninas da sua idade. “Comigo também era assim. Estou a ensinar tudo da religião para ela praticar e cumprir. Depois quando ela chegar à idade de decidir, escolhe se quer continuar. É opção dela.”

Perfeitamente integrada, a filha de Fatema aprendeu rapidamente a falar Português e frequenta o sétimo ano de escolaridade. É delegada de turma há dois anos e atleta do clube local Juventude Vidigalense. Nos treinos, o seu equipamento pode ser ligeiramente diferente do das colegas, sobretudo no verão, quando as calças dão lugar aos calções. “Talvez use bermudas, mas mais curto não. Ela não gosta”, diz Fatema. Gostando ou não, a vontade dos pais e os fatores culturais e religiosos podem impor-se ao gosto e vontade adolescentes.“Vestidos muito curtos não, não gosto”. Pelo menos da porta de casa para fora. Apesar disso, a jovem não usa véu. Ainda que a religião recomende o uso do véu, “ele não é obrigatório”, destaca Fatema. “No Egito usava quando íamos à mesquita. Obrigá-la não, não é bom, mas falo com ela sobre isso”, adianta.

Na escola, em Leiria, há outras meninas muçulmanas, de países como o Uzbequistão, Guiné-Bissau ou Marrocos e nenhuma usa lenço. É também por essa razão que Fatema não insiste com a filha.

O respeito que tem pelos outros é o mesmo que espera para si. E nota que, na atitude em relação à filha, há semelhanças com a educação portuguesa. A filha tem página de Facebook, como tantos outros jovens, mas monitorizada pelos pais. Tem amigos de ambos os sexos, mas as amizades com rapazes circunscrevem-se à escola e ao clube de atletismo. Não tem namorado e mesmo que quisesse isso não seria bem aceite pelos pais. Para Fatema, um namorado nessa idade não lhe iria “acrescentar nada de bom”. “Pode ser um entrave para o seu futuro. Se tiver namorado, vai estudar?”

As conversas sobre isso nem sempre são pacíficas. À rebeldia própria da idade, junta-se a dualidade cultural em que a jovem tem crescido. “Por que é que a nossa religião não permite namorados?”, “por que é que usamos lenço?” ou “a nossa religião é muito difícil” são algumas das frases que Fatema ouve ocasionalmente da filha. Porém, observa, as mães das suas colegas e amigas portuguesas também não gostam que as filhas dessa idade namorem. “Quando for maior de idade, terminar a universidade, a decisão é dela”. O mesmo vale para o lenço ou hijab. “O importante para mim é que ela faça as nossas orações, que seja tolerante com as outras pessoas e culturas”.

Respeito e abertura são as palavras que mais ouvimos a Fatema e Genabu. Um e outro termo resumem, de certa forma, o espírito dos muçulmanos residentes em Portugal, independentemente da sua fação ou comunidade: aceitar e ser aceite.

Talvez por isso, Fatema não veja sentido em ser classificada como sunita à luz da fé porque o profeta é o mesmo para todos os muçulmanos. No mesmo sentido, defende que as religiões devem trabalhar juntas pela paz e pelo amor, porque, para si, Deus é um só para todos os seres humanos, independentemente da religião. Quando visitou o Santuário de Fátima – ela que, curiosamente, vive na rua que tem o mesmo nome da Virgem e que é também o seu –, sentiu um “conforto” semelhante ao que sente na mesquita. Por isso, também não vai descansar enquanto não decifrar o caminho até à igreja erguida no cimo do monte e que se avista da janela, junto ao seu tapete de orações a Alá.

Muçulmanos em Portugal

Em Portugal, vivem entre 60 a 62 mil muçulmanos. A maioria é sunita e há cerca de oito mil shiitas ismaelitas. A maior parte da comunidade islâmica em Portugal é oriunda das ex-colónias portuguesas: os sunitas, da Guiné-Bissau, e os shiitas ismaelitas, de Moçambique. Muitos tinham nacionalidade portuguesa e estavam já integrados na sociedade portuguesa. À medida que os anos foram passando a comunidade foi-se diversificando. Enquanto aqueles vieram, maioritariamente, na década de 70, depois dos anos 90 chegaram, a Portugal, muitos muçulmanos da Bósnia, como assinala Teresa Almeida e Silva. “De há uns dez anos para cá têm vindo muitos do sub-continente indiano, do Bangladesh e do Paquistão”. Ao contrário dos muçulmanos oriundos das ex-colónias, que vieram em família, os desta zona vêm sozinhos e é normalmente o homem que vem primeiro. Só depois vem o resto da família.

Os muçulmanos em Portugal, distribuem-se, sobretudo, pelas zonas de Lisboa, Odivelas, Laranjeiro (Almada) e Barreiro, havendo também algumas comunidades no Porto e no sul do país. A zona de Odivelas concentra muitos dos que são oriundos do sub-continente indiano. Já a comunidade guineense, por exemplo, divide-se, essencialmente, por Lisboa , e nos concelhos à volta da capital.

“Em Portugal, a comunidade muçulmana sente-se bem, porque lhe é dada a oportunidade de se integrar na sociedade, mantendo as suas especificidades, as suas características e valores muçulmanos”, afirma Teresa Almeida e Silva.