Quero ser mãe Vs. Não quero ser mãe

Texto: Carmen Saraiva

«O instinto maternal está presente em todas as fases da vida da mulher», defende o psicólogo clínico, Jorge Carrulo. Depois, é preciso estar preparada para as mudanças porque nada será como antes.

Ser mãe é mesmo um instinto

A maternidade, como a gravidez, é um estado de graça. Uma bênção pela qual grande parte das mulheres anseia. Talvez por essa razão sejam criadas grandes expectativas em torno deste acontecimento, todo um rol de ilusões à boa maneira dos contos de fadas, que muitas vezes se desvanecem (ou não) depois do parto, aquele momento em que nasce um bebé, e nasce também uma mãe. A hora H, em que a realidade se dá à luz. O encantamento surge, mas surgem também as dificuldades.

Por que razão temos tanta tendência a mistificar o conceito da maternidade? Jorge Carrulo, psicólogo clínico, considera que nem sempre foi assim. “Há 100 anos, as expectativas culturais e sociais estavam diretamente ligadas à comunidade em que a mulher vivia, ao espaço físico. Com a massificação dos media verifica-se uma forte influência na criação das expectativas negativas através de qualquer post, vídeo, fotografia, sobre um bebé, um relacionamento mãe-bebé-companheiro-família, onde tudo é perfeito, sem falhas”, afirma.

A maternidade começa, naturalmente, “quando os pais sabem que estão ‘grávidos’, e esta gravidez foi desejada, existem sentimentos de plenitude, de omnipotência e de consagração do amor do casal”, diz o especialista, vincando que “nesta fase, as mães e os pais concebem o bebé na imaginação, nos sonhos, numa espécie de útero mental”.

Marília Tavares, 41 anos, casada, é mãe de João Afonso, de 11 anos. Decidiu ser mãe, segundo recorda, porque algo lhe dizia que “estava na hora”.“Fiquei grávida «à primeira», mesmo depois do médico me ter dito que poderia demorar cerca de um ano, e por isso fui apanhada de surpresa. Quando fiz o teste, além de um sentimento de felicidade inexplicável, e de um medo na mesma proporção, lembro-me de pensar que, a partir daquele segundo, nunca mais deixaria de estar preocupada. E estava absolutamente certa.”

O psicólogo clínico indica que “o instinto de ser mãe está presente em todas as fases da vida da mulher, contribuindo no seu modo de ser, pensar e agir, fazendo parte da psicologia feminina”. No entanto, é claro que existem grandes diferenças entre as rotinas pré e pós maternidade, e essa gestão pode tornar-se complicada nos primeiros meses.

Mafalda Galamas, 37 anos, casada e mãe de Bernardo, 4 anos, e Salvador, 1 ano, confessa que do que mais sente falta são dos “programas a dois, como jantar fora e ir ao cinema sem horas para regressar a casa, ou até passar fins de semana fora sem necessitar de um planeamento digno de emigrante.” O facto de ter deixado de ser dona do seu tempo influenciou todas as áreas da sua vida, e agora tudo é pensado em função dos filhos.

Marília Tavares comprova: “Depois de ser mãe, já penso duas vezes quando há que ir a um congresso que ocupe um fim de semana. Já recusei um trabalho, por saber que teria de viajar ainda mais. Durante a semana, só faço exercício físico enquanto ele está nas suas atividades. Sempre que me é possível, fico a trabalhar em casa, para lhe poder dar mais apoio.”

Jorge Carrulo esclarece que, ao ser mãe, “a mulher precisa de reorganizar a sua vida pessoal, familiar e profissional para voltar-se exclusivamente, nos primeiros meses, aos cuidados do bebé, alterando os seus investimentos emocionais, a organização em relação ao tempo. Conforme o bebé vai crescendo, as mães podem voltar aos seus passatempos e resgatar as atividades preferidas.”

Não deve a mãe, no entanto, esquecer-se de si, enquanto mulher. “Um dos maiores pediatras e psicanalistas do mundo, Donald Winnicott, refere que é necessário haver um corte na relação fusional e deixar que haja um desenvolvimento individual, tanto da mãe como do bebé. Uma das formas de lidar com a anulação é deixar que os companheiros participem e tenham uma voz ativa no cuidado físico, emocional e psíquico do bebé. Outra é reinvestir na relação conjugal. O exercício físico é outra forma de lidar com a relação fusional, permitindo a libertação de endorfinas, aumentando a sensação de bem-estar, humor, concentração e diminuindo a ansiedade.”

É já sabido: a maternidade traz para muitas mães um constante questionar das suas capacidades enquanto progenitoras, um eterno sentimento de culpa. Marília Tavares conhece-o bem. “Sentimos culpa porque trabalhamos até tarde e não estamos a horas do banho. Sentimos culpa porque temos que viajar em trabalho e faltámos à reunião da escola. Sentimos culpa porque não temos tempo para fazer bolos para o lanche, como a nossa mãe fazia. Sentimos culpa porque ele caiu e nós tínhamos ido ao cabeleireiro. Sentimos culpa porque não temos paciência para rebolar no chão ao final do dia e há que fazer o jantar. Sentimos culpa. Ponto.”

Jorge Carrulo considera isto algo normal. “O estado de preocupação materna garante à mãe a sua identificação com o filho, facilitando a sua compreensão e o acompanhar das necessidades do seu bebé. Por isso, o questionar constantemente a capacidade materna e de serem boas mães é algo esperado, desejado e saudável.”

No “produto acabado”, Marília e Mafalda são unânimes. “O amor incondicional sem qualquer espera de retorno, um amor puro e sem segundas intenções”, de acordo com Mafalda, é a maior recompensa da maternidade. Marília acrescenta: “Vale muito a pena. Mesmo naqueles dias em que só apetece desaparecer. Quando eles fazem birras no meio do supermercado, ou xixi pelas pernas abaixo na festa do chefe. Vale a pena.”

 


Instinto maternal? Nada disso!

Ser mãe não define uma pessoa, muito menos uma mulher. Esta forma de olhar a maternidade, sustentada por muitos especialistas que advogam que a maternidade não é imperativo biológico, está a ganhar adeptas

São cada vez mais as mulheres que, ignorando o estigma social, se identificam com o movimento childfree [sem filhos] definitivo que, na Holanda, já chega aos 18% do sexo feminino em idade fértil . Ana Mateus, 32 anos, enfermeira, integra o grupo português. “Nunca senti vontade e, com a minha profissão penso que não teria disponibilidade para dar a uma criança a atenção que ela requer e merece”.

Dizem-lhe muitas vezes que daqui a alguns anos se irá arrepender ou tentar engravidar a todo o custo, mas Ana discorda. “Parece-me que o tic-tac do relógio biológico não me irá afetar e, por outro lado, ser mãe não me define como pessoa e muito menos como mulher”. Admite nunca ter sido fascinada por crianças: “Gosto de umas, de outras nem tanto. E depois de as ter é impossível devolvê-las”, brinca. “É inconsciente arriscar a experiência só por que é suposto que assim seja”.

Paula Figueiredo, 50 anos, marketeer, também não se revê na maternidade. “Nunca senti o desejo”, garante. Na juventude, muitas das suas amigas até tinham definido com que idade queriam ser mães e os nomes das suas crianças antes conhecerem o potencial pai. Já a ela não lhe passava pela cabeça a possibilidade de ter filhos. “Enquanto elas não concebiam a ideia de não os ter”, recorda.

E a biologia, tem ou não um papel condicionante na decisão pela maternidade? A resposta é não. Não condiciona e não obriga as mulheres a serem mães para se sentirem completas enquanto seres humanos. “A escolha de não ter filhos pode ser uma preferência genuína da mulher por se sentir realizada com projetos de vida de outra natureza. Diria que esta é a situação mais saudável porque não é reativa a fatores externos da personalidade e será consonante com um desejo interior da mulher”, diz a psiquiatra Joana Gonçalves.

Aliás, o mito do instinto maternal já foi deitado por terra nos anos 80 pela socióloga feminista Elisabeth Badinter. Segundo a francesa – que é mãe de três filhos – não existe vocação natural para a maternidade. As suas pesquisas sobre a gravidez e amamentação ao longo dos últimos séculos mostraram que a maioria das crianças era completamente negligenciada e entregue a amas-de-leite a troco de dinheiro. Mais recentemente, a socióloga israelita Orna Donath foi mais longe e, em entrevista ao jornal espanhol El País, declarou mesmo que “o instinto maternal não existe”.

De acordo com o estudo “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, que se baseia em dados do Inquérito à Fecundidade de 2013 levado a cabo pelo Instituto Nacional de Estatística, os fatores financeiros determinam, em 67% das pessoas, a decisão da não-maternidade. A dificuldade em obter um emprego aparece em segundo lugar na lista de condicionantes, sendo uma preocupação para 48% das mulheres. “Hoje em dia antes de se ter um filho pensa-se no seu bem-estar”, explica Manuela Tavares, investigadora social e fundadora da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). “As crianças já não são uma mais-valia económica; pelo contrário, exigem tempo que os pais não dispõem precisamente porque estão a trabalhar para poderem providenciar o tipo de educação que é socialmente exigida”.

Significa isto que são cada vez mais planeadas “o que se trata de um fator de desenvolvimento e positivo na sociedade”, afirma. No entanto, “a pressão mantém-se para que se continue a procriar, até por motivos demográficos e dado o envelhecimento populacional”, alerta, “quando se devia ter em conta um fator muito importante: o desejo da maternidade”.

A efetiva conciliação do tempo entre família e filhos e os restantes projetos de vida é um assunto mal resolvido na sociedade portuguesa, em que a partilha das responsabilidades domésticas e familiares penaliza especialmente as mulheres e agrava-se quando estas se tornam mães.

E como fogem estas mulheres da pressão social? “Tornei-me mestre em mudar de conversa!”, diz Paula Figueiredo. “Mas na verdade nunca senti que existia uma grande expectativa sobre o facto de eu vir a ser mãe, nem que estava a impedir os meus pais do direito de serem avós, até porque já tinham uma neta”. Além de que, desde cedo, os familiares perceberam e aceitaram que a sua natureza era diferente: quando devia estar a pensar em casar e engravidar foi estudar para o estrangeiro, algo inédito numa família tradicional como a sua.

Ana Mateus, por seu lado, vai sobrevivendo às indiretas da família. “Ajuda não ter uma relação estável”, confessa. O que a irrita é a discriminação no trabalho. “Pensam que não tenho vida própria e que estou sempre disponível para trocar turnos ou fazer horas extraordinárias”. Tal como a enfermeira, Paula Figueiredo também é muitas vezes considerada como presença segura quando é necessário ficar até mais tarde no escritório ou viajar. “Às vezes não custava, pelo menos, perguntar.” Porque, demonstram as três: há vida além da maternidade.