A poesia no Facebook de Maria Teresa Horta

Texto: Carla Bernardino

Todos os dias, Maria Teresa Horta partilha um poema na sua página do Facebook. A poetisa crê que a “poesia é para partilhar”. Por isso, movida pelo desejo e pela “necessidade física” de escrever e porque acredita que aquela rede social “pode estimular a procura da obra”, é tempo de fazer chegar os versos para espicaçar o gosto.

O ritual começou há cerca de três anos, por volta de outubro de 2013. Todos os dias, a meio da tarde, a poetisa Maria Teresa Horta encontra, ora na sua obra publicada – de poesia erótica e não só –, ora entre os inéditos, ora motivada por acontecimentos da atualidade (como a Superlua ou a vitória de Trump na presidência dos EUA), um poema com o qual assinala o dia e partilha-o na sua cronologia de Facebook: Teresa Horta, uma das três páginas que existem em seu nome.

A experiência começou por ser feita pelo companheiro da autora de 79 anos, Luís Barros, com quem vive há meio século, na página oficial da escritora e jornalista: “Cada vez que o meu marido publicava um poema no Facebook, vinham não-sei-quantos gostos, era uma loucura”, recorda. “Era e é”, refaz.

Foi precisamente essa procura e a crença de que “a poesia tem de se partilhar” que levaram Maria Teresa Horta a aproximar-se um pouco mais da rede social e a transformá-la numa janela para o seu trabalho. “Esta procura chamou-me, de repente, à atenção para um aspeto: Se há imensos gostos, e inclusivamente partilhas, porque não uma página pessoal para a Teresa fazer isso?”, conta, tendo consultado a família na hora de tomar a decisão.

A partir daí, todos os dias os seguidores sabem que, mais hora menos hora, cai um momento poético na timeline. “A poesia está nas livrarias, nos encontros e nos grupos de leitura – que considero muito importantes neste momento em que a leitura baixou tanto –, e penso que enquanto o Mundo tiver poetas e poesia, tem solução.” E por acreditar nisto, a escritora toma a dianteira e avança com a sua parte.

A escritora quer aproximar a arte do público e deitar por terra a ideia, generalizada, de que as pessoas não apreciam daquele género literário. “Sempre fiz prometer aos que dizem não gostar de poesia, que leriam um poema por dia. Conheci gente que, a partir daí, deixou de ser capaz de se deitar sem ler pelo menos um poema”, conta. E o argumento de que não entendem o verso não colhe junto de Maria Teresa Horta: “Eu digo: não queira entender, queira primeiro sentir. Só depois entende. Os poetas falam de sensações, de cores, de ventos, de beleza, de tristeza, de crítica, de entrega, de paixão, de erotismo, de corpo”.

Mas há mais um argumento que justifica esta opção: É por não conseguir viver sem poesia – e acreditar que os outros têm necessidade semelhante – que Maria Teresa Horta cumpre este ritual, sem fins-de-semana, sem feriados, sem férias. “Estou em casa, vou fazer almoço… porque sou mulher. Sim, porque os homens, os poetas, não têm de estar cozinha e não precisam de ir à sala ler um poema de Marina Tsvetáieva (autora russa, 1892 – 1941) para poderem aguentar estar na cozinha. Isso é coisa das poetisas, não é uma coisa das poetas”. É por defender que “a poesia salva todos os dias um bocado” que a escritora feminista cumpre o ritual.

“Para mim, poesia é corpo, fruição física. Eu tenho prazer físico com a poesia. É necessária, é urgente. Adoro escrever, a poesia sou eu, eu sou a minha poesia. E estou cada vez mais convencida que se estou aqui é porque faço poesia, porque a leio de outros poetas que amo.”, suspira a escritora, que encontrou no Facebook um local de expressão e distribuição do seu trabalho, mas também um sítio onde todos são convocados a participar um pouco. “Mal faço um poema e ele está cá fora, já não é meu só, é dos outros”, defende, não proibindo ninguém de levar emprestado este espólio. “Há muitas pessoas que me perguntam se podem partilhar e a resposta é sempre a mesma: Pode levar! Dessa forma, não são só as pessoas que seguem a minha página que leem um poema por dia, são elas que depois partilham para as suas páginas, fazendo com que sejam lidos por outros e isto é infinito, não é?”. É!

Iniciativa suscitou curiosidade o outro lado do Atlântico
Esta iniciativa de Maria Teresa Horta há muito que saltou o oceano e gerou incredulidade. “Quando comecei a pôr poesia no Facebook, telefonaram-me dos Estados Unidos da América e perguntaram-me se era verdade”, conta. “Vieram cá a casa uma jornalista e um camaraman e a pergunta dela era: ‘Mas faz poesia e partilha-a? De graça? Claro. Partilho de graça!’

Mais: a escritora feminista afasta qualquer efeito canibalizador da rede social sobre a obra publicada ou por publicar. “O Facebook nunca substitui o livro? Nunca! Agora, é um mecanismo, uma forma de chegar às pessoas, e que vai para além do livro. Tanto que, para mim, um poema continua a ser inédito seja publicado em revista, seja na Internet. Para mim, só deixa de ser inédito quando está em livro”, vinca.

Com cautelas, a autora admite que a difusão da sua arte na rede social pode, inclusivamente, trazer mais gente aos seus livros. “Penso que o Facebook pode estimular a procura da obra”, considera. “Quando começo a colocar poemas na minha página, descobrem-se leitores e leitoras muito interessantes que passam a ir aos lançamentos dos meus livros, que conhecem os meus livros, que fazem perguntas”, descreve.

Lembra, até, que apesar de oferecer poemas no Facebook, não deixou de ver obra sua editada. “Isto é um meio de divulgar a poesia, não inviabiliza a publicação de livros. Desde que tenho a página já publiquei Meninas e, em junho deste ano, Anunciações, e reeeditei Minha Senhora de Mim, Ambas as Mãos sobre o Corpo”.


Feminismo corre-lhe no sangue

Poetisa e jornalista, de 79 anos, é desde sempre símbolo de uma poesia que abalou a sociedade conservadora portuguesa e uma voz ativa na luta dos direitos das mulheres. Em 1972, e em parceria com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, escreveu Novas Cartas Portuguesas, obra banida pelo Estado Novo pelo alegado teor pornográfico e que culminou em processo judicial, que ficou conhecido como o “Caso das Três Marias” e que teve eco internacional. O caso ficava fechado já depois do 25 de abril, com a absolvição das três escritoras, desde aí consideradas as grandes vozes dos direitos femininos em Portugal.

Esta imagem e esta herança nunca deixaram de estar nas mãos de Maria Teresa Horta, que lamenta, hoje, um profundo retrocesso em matéria de direitos das mulheres no Mundo. “O feminismo continua a ser premente porque a situação da mulheres está a viver, até, um retrocesso, e vê-se o que aconteceu nos EUA, com a eleição de Donald Trump. Tudo o que ele [presidente a partir de 20 janeiro] diz sobre as mulheres é inacreditável. É espantoso como ainda alguém me pergunta se eu acho que a luta pelo feminismo ainda faz sentido. Continua a haver 50 a 60 e tal mulheres mortas todos os anos em Portugal, nos EUA há uma mulher morta de dois em dois minutos e uma mulher violada de dois e meio em dois e meio”, destaca.

Por cá – apesar do reconhecimento da igualdade de género previsto na Constituição – há muito por fazer. “É pasmoso que, neste momento, nos liceus, os namorados batam nas namoradas e elas aceitem. Como será quando estiver casada? As mulheres são, de facto, o elo mais frágil, não são de todo livres. Não há igualdade entre géneros. Na luta da mulher é preciso dar três passos em frente e recuar dois, sabemos isso muito bem. E neste momento recuaram-se muitos passos, até desde o 25 de Abril”, alerta.

Um desequilíbrio enraizado até nos nos pequenos gestos do quotidiano: “Começa com o nascimento, onde é tudo diferente para rapazes e raparigas. Chegamos às lojas e pedimos para ver um casaquinho para os netos, e a primeira pergunta é ‘se menina ou menino?’. Isto tem toda a importância, define mentalidades. Temos de mudar, abrir mentalidades, não dar tolerância a tudo. No nosso país, não temos cumprido um direito que está na Constituição e que estipula salário igual para trabalho igual. À frente das coisas mais importantes estão homens e na política estão homens”, recorda a escritora. “Tem de haver equilíbrio e, como eles não fizeram nada de bom sozinhos, era tempo de fazermos em conjunto”, pede a poetisa.

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