Uma nova condição feminina


Texto: Carla Bernardino | Produção: Margarida Brito Paes | Fotografia: Pedro Ferreira | Vídeo: Images4events

O mundo mudou e as mulheres também ou melhor, o mundo mudou, e, em grande parte, isso deveu-se à mudança no feminino. Os paradigmas alteraram-se e já não há cânones. O desejo da paridade convive com discrepâncias salariais e com um grande peso do trabalho doméstico. A maternidade é uma escolha, livre de estigmas sociais. A sexualidade alarga horizontes. O que é hoje a condição feminina, e quais os desafios que se colocam às mulheres. Estes são os motes para a reflexão.

 

Paridade no poder, uma miragem para as mulheres?

Os lugares de topo nas empresas, a presença na política e nas instituições ainda se conjugam no masculino. São eles quem mais ocupa os cargos cimeiros, mas cada vez mais vozes clamam pela paridade. Por cá, o governo sustentou, no documento Grandes Opções do Plano para 2016, que o princípio das quotas mínimas em vigor nas listas eleitorais dos partidos fosse alargado à administração direta e indireta do Estado, ao setor empresarial da esfera pública e às empresas cotadas em Bolsa, estipulando 2019 como horizonte temporal. O tempo para esta medida vai começar a contar a partir do primeiro dia de janeiro de 2017 e o caminho a fazer deverá ser progressivo.

Para os setores de administração direta e indireta do Estado, a percentagem de mulheres deverá ser de 33,3% no próximo ano, subindo para os 40% em 2019, até atingir a “paridade pura”, segundo defendeu Eduardo Cabrita. O ministro-adjunto reiterou também que nas “entidades empresariais locais” e nos “órgãos de administração e de fiscalização das empresas do setor empresarial do Estado”, o executivo dá até 2018, inclusive, para que seja atingida uma quota de 33,3%. Neste último grupo fica também enquadrada a futura composição da administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), atualmente envolta em polémica, mas que tem cerca de três anos para atingir a meta de 30% de representação feminina. O governo pretende, segundo Cabrita, seguir o que é prática em vários países europeus, como “a Bélgica, a Alemanha, a Dinamarca, a França, a Itália, a Espanha, a Holanda, a Áustria e a França” e acompanhar a “atual dinâmica social” global.

No setor privado português, o estudo da Informa D&B especifica que 42,2% da força de trabalho nas empresas é feminina, mas apenas 8,9% ocupa lugares de direção.

Uma disparidade que se reflete, também, nos rendimentos económicos. De acordo com o relatório do Fórum Económico Mundial, publicado em finais de outubro, a igualdade de género só deverá ser atingida dentro de 170 anos, ou seja, em 2186. A previsão representa um retrocesso em relação aos 118 previstos em 2015.

As mulheres, de acordo com a análise levada a cabo pela mesma instituição, ganham, em média, pouco mais de metade do que os homens, apesar de em geral trabalharem mais horas, e a representação do sexo feminino em postos de responsabilidade também se mantém baixa.

Na política, o caminho ainda é longo e sinuoso, apesar de, em Portugal, esta legislatura que está em curso ficar marcada pela cumprimento de uma lei que data de 2006: 1/3 dos lugares de deputados, 76 de 230 lugares na Assembleia da República, está nas mãos de mulheres. Mas elas continuam a lembrar que há diferenças, e que se denunciam no quotidiano. Que o diga Assunção Cristas, atual presidente do CDS-PP e ex-ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território: “Quando me perguntam como consigo conciliar a vida familiar e a política respondo sempre que tenho um bom marido. Gostava de saber se fariam essa pergunta ao Bill Clinton”, declarou em agosto, à Notícias Magazine.

Mais recentemente, a questão da política e da maternidade obrigou inclusivamente a primeira-ministra escocesa, Nicole Sturgeon, a trazer a vida pessoal para a esfera pública e a resgatar ao passado o doloroso momento em que sofreu um aborto espontâneo. Tudo para calar as acusações dos que diziam que, para chegar à política, ela não cumpriu com a vida familiar.

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Vídeo dos bastidores

Nos bastidores do ensaio fotográfico sobre a nova condição feminina. Veja como se constrói um editorial de moda e todos os intervenientes que não entram nas fotografias.

Libertar as amarras no lar

As mulheres portuguesas são quem mais trabalha em casa. Uma ocupação diária que suplanta as quatro horas, no caso do sexo feminino, praticamente o dobro do tempo que os homens despendem na execução de tarefas no lar. Simplificando e pegando num exemplo quotidiano que todos reconhecem, por dia, as tarefas domésticas consomem às mulheres o equivalente à duração de quase três jogos de futebol. Já para os homens, e por comparação, bastaria um jogo e pouco mais de uma primeira parte do segundo para completar a média diária.

Estas foram as conclusões decorrentes de uma pesquisa conduzida desde outubro de 2014 por uma equipa do CESIS – Centro de Estudos para a Intervenção Social em parceria com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE). Uma análise que aponta ainda para um futuro negro porque mostra que a tendência continuará a replicar-se nas gerações mais jovens, onde também há uma distribuição desigual e penalizadora para as raparigas.

O facto de homens e mulheres usarem o tempo de responsabilidades domésticas de forma muito desigual reflete uma perceção social de que «o tempo do cuidar é fundamentalmente um tempo das mulheres”, lê-se nas conclusões do estudo. Os homens são vistos como o provedores da família». Uma visão que não acompanha a atualidade e a presença das mulheres no mercado de trabalho, mas acaba por ter «impactos negativos na igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no mundo laboral em geral (recrutamento, gestão da carreira, remuneração e reforma)».

A preocupação em torno deste desnivelamento é, de resto, internacional. Melinda Gates, a mulher do milionário Bill Gates, há muito que quer pôr os homens a trabalhar em casa. Pelo menos foi isso que Melinda pediu na mensagem anual que ela e o marido enviaram, em fevereiro último, ao mundo. O casal, com uma riqueza avaliada em 71,7 mil milhões de euros (75,8 biliões de dólares), resultantes da criação da Microsoft, escolheu o tema falta de tempo porque, segundo a própria, afeta todas as mulheres do planeta: «Globalmente, as mulheres gastam em média 4 horas por dia a fazer trabalho não pago. Na Índia gastam 6. As desigualdades não são tão grandes nos países desenvolvidos mas não há um único país no mundo em que os homens passem tanto tempo a fazer o trabalho não pago que faz com que as sociedades avancem.»

Mais bebés chegam a novas famílias

Os tempos da maternidade estão a mudar. Por um lado, as mulheres que não querem ser mães estão cada vez mais autodeterminadas e sentem ter um espaço maior para se afirmarem contra esta expectativa social. Por outro lado, a sociedade portuguesa deu, este ano, passos largos rumo ao aumento natalidade e à diversificação dos núcleos familiares.

Este 2016, segundo os dados apurados pelo número de testes do pezinho feitos aos bebés, parece vir a ser um ano com ainda mais crianças, cavalgando a tendência já indicada nos últimos dois anos. E é de notar que foi, em grande parte, graças número de casais que decidiu ter um segundo filho que as estatísticas relativas a 2015 conheceram um aumento considerável. De facto, a chegada de um irmão mais novo à família cifrou-se nos 36,4%, batendo um recorde que já não se verificava desde os anos 80 do século passado. 

A média de idades com que as mulheres engravidam pela primeira vez, essa, continua a aumentar, situando-se, em 2015, nos 30,2 anos, o mais alto desde este indicador demográfico é estudado.

Porém, não é apenas a vida nas salas de parto do país – bem mais agitadas, é certo – que está a mudar. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) referentes a 2015 – e publicados a meio deste ano –, mais de metade dos bebés que nasceram (50,7%) são filhos de pais que não estão casados. Destes, 16,3% chegam ao seio de uma família que não coabita.

Os novos núcleos familiares vieram para ficar e para se diversificar. E o ano que agora chega, 2017, ficará marcado como o início de um caminho novo, sobretudo a partir de janeiro, quando a Procriação Medicamente Assistida no Serviço Nacional de Saúde passar a ser permitida e praticada a todas as mulheres que desejem ser mães, independentemente do seu estado civil ou da sua orientação sexual.

Emancipada ou “do lar”: que papel assenta melhor?

Choques culturais em cadeia. A moda, pela mão da Dolce & Gabbana, convocou as abayas e os hijabs (lenço que cobre a cabeça e o pescoço e usada por mulheres muçulmanas), Nova Iorque foi palco do desfile de Anniesa Hasibun que apostou em exibir modelos a envergar os véus islâmicos e o sul de França reprimiu, tendo depois arrepiado caminho, o burkini (fato de banho que junta a burka e biquini). Tudo em apenas um ano e a obrigar a sociedade liberal a confrontar-se com o tradicional e a levar a indústria a olhar para outras realidades, mas nem sempre as compreendeu. 

Até os media quiseram integrar esta nova dimensão, espicaçar os limites e alargar ângulos de visão. Que o diga o a revista Women's Running, que, pela primeira vez na história das publicações norte-americanas de fitness, concedeu a capa a uma mulher com um hijab.

Mas a luta de papéis femininos é histórica e é muito mais transversal. Ela é política, também. Este ano, o Brasil ajudou, como ninguém, a materializar este confronto. Explicamos como. O “país-irmão” era comandado por uma mulher que passou grande parte da sua vida envolvida em lutas políticas, chegou a presidente do Brasil e foi destituída por ter feito manobras, consideradas ilegais, no orçamento. Falamos, claro, de Dilma Rousseff.

Uma vez destituída, sucedeu-lhe Michel Temer. A mulher deste e atual-primeira dama, Marcela Temer, 43 anos mais nova que o marido, foi apresentada na imprensa como “bela, recatada e do lar”. Uma descrição feita pela newsmagazine brasileira Veja que causou polémica por imprimir um tom conservador à função de primeira-dama e que correu mundo.

Também na América, mas do Norte, o presidente eleito Donald Trump chegou à Casa Branca com um discurso alicerçado, entre outros preconceitos, na misoginia. “Não interessa o que os media dizem, desde que tenhas ao lado uma gaja nova e com um belo rabo” ou “se a Hillary Clinton não consegue satisfazer o marido, o que é que a faz achar que pode satisfazer a América?”. Estas são duas das muitas frases proferidas pelo milionário que, há anos, ataca o sexo feminino. Se não veja-se: “Mulheres, temos de as tratar como merda”, declarou em novembro de 1992, à revista New York. Agora, é o presidente da maior potência mundial.

O futuro da intimidade

Miley Cyrus veio agitar as águas da sexualidade ao assumir, no início de 2016, que era pansexual – alguém que gosta de todos os géneros sexuais e recusa a classificação homem/mulher –, adiantando que não se sentia "nem heterossexual, nem gay". A antiga estrela da Disney, com 23 anos, e referência para os adolescentes declarou à revista Variety que sempre tinha detestado a palavra bissexual e que não consegue "pensar se alguém é um rapaz ou uma rapariga". Uma realidade com a qual cedo começou a conviver, quando ainda frequentava "o quinto ou sexto ano". "A primeira relação da minha vida foi com uma rapariga", confessou a cantora à revista.

Um processo de descoberta, relatou Cyrus, que aconteceu quando visitou, em Los Angeles, um centro LGBTQ [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e Queer]. "Comecei a ouvir as histórias das pessoas. Ouvi a de um ser humano em particular que não se identificava nem com o género masculino, nem com o feminino. Achei-os belos, sexy, duros e, ao mesmo tempo, vulneráveis, femininos, mas também masculinos".

Mas a diversidade e os papéis sexuais há muito que se alargaram, símbolo da emancipação e libertação, e o número de adeptos do "não-género" parece estar a crescer, escapando, assim, à tipificação clássica da intimidade. Entre as definições cada vez mais dessiminadas – que incluem a assexualidade (alguém que não sente atração por nenhum tipo de pessoa) – encontramos a preferência pela androginia, ou seja, pelas pessoas que têm características de ambos géneros. A par desta realidade, cresce também o poliamor, uma realidade em que uma pessoa mantém relações com várias e com o consentimento de todas.


Fotografia: Pedro Ferreira

Styling: Margarida Brito Paes

Cabelo: Olga Hilário

Make Up: Miguel Stapleton

Assistente de fotografia: Ana Viegas

Assistente de produção: Sofia Leal da Costa

Modelos: Cláudia Morais (da Banda Model Management), Catarina Lynce (Central Models), Kimberly Pearl, Xavier e Simão