Josefinas, as sabrinas feministas

Texto: Carla Macedo e Carla Bernardino

“As nossas coleções são criações com significado”

A Josefinas, marca portuguesa que nasceu em 2012 e cresceu graças à internet, já tem um pé em Nova Iorque, com uma loja física, e está de olho noutros mercados. A casa que comçeou por produzir sabrinas, há muito que está a diversificar os seus produtos, mas quer cumprir sempre duas máximas: a de ajudar mulheres e a de homenagear ícones da História, sejam elas as de hoje, sejam as do passado.

Filipa Rodrigues Júlio, a criadora da marca Josefinas, sabia bem o que queria, mas não encontrava: “uns sapatos bonitos e simples”. Por isso, em 2012, decidiu fazer-se ao caminho e criar as Josefinas.

Filipa encontrou a parceira certa, Maria, e, em menos de três anos, as Josefinas passaram a ser muito mais do que umas sabrinas, são atualmente também sapatilhas, loafers, botas e slingbacks, revelam-se ícones do feminismo internacional, assumem um papel de relevo na melhoria das condições de vida das mulheres e configuram uma tendência incontornável no Instagram, com mais de 52 mil seguidores. Este foi o ano em que abriram a primeira loja em Nova Iorque – na 252 Elizabeth Street, no bairro Nolita – e deixam agora vincada a vontade de expansão. Sem revelar muitos detalhes, a equipa antecipa a possibilidade de abrir mais lojas físicas, “nunca serão mais do que duas ou três no total”, que “possivelmente implementar-se-ão para outros mercados”. Mas para já, é nos Estados Unidos da América que as Josefinas concentram energias. Sempre contando com produtos nacionais – como o burel – e com histórias de mulheres – como a da norte-americana Rosa Parks.

Desde julho que as Josefinas têm uma loja em Nova Iorque. Como tem sido a aceitação da marca?
Tem sido extraordinário. Quem não conhece a marca e descobre-a de passagem fica deliciado com o universo da Josefinas. Por outro lado, é um sentimento incrível quando alguém que já conhece a marca visita a loja propositadamente.

Que tipo de diferenças nota no que o consumidor?
Converge na loja da Josefinas uma panóplia de clientes: há locais e turistas vindos de todo o mundo. Cada um tem as suas especificidades. Por exemplo, as asiáticas tendem a preferir a nossa coleção mais icónica.

Que mudanças trouxe a loja física para a marca, que começou por se destacar no universo web?
É um facto que ao estarmos fisicamente em Nova Iorque chegam até nós oportunidades que de outra forma não chegariam, é um sentido de oportunidade único estarmos na capital mundial da moda e do luxo.

Ponderam abrir mais espaços físicos? E onde?
Para já, o nosso foco são os Estados Unidos da América. Havendo expansão das nossas lojas físicas, nunca serão mais do que duas ou três no total. Muito possivelmente implementar-se-ão para outros mercados.

Quais os projetos e objetivos para 2017?
2017 é uma continuação da internacionalização e conquista do mercado norte-americano.

Esta nova coleção a Burel Couture aposta neste tecido como material para as Josefinas. Porquê esta escolha?

Acreditamos que em Portugal se criam artes únicas, muitas vezes até esquecidas e ignoradas. O burel é um tecido natural extraordinário, perfeito para uma edição de inverno. Conhecemos o material e a história da mulher que o recuperou, por isso, tínhamos a certeza que era o ideal para trabalharmos.

A aposta nos produtos regionais portugueses vem para ficar? Se sim, que outros produtos estão a ser pensados?

Sim. Uma das nossas máximas passa pela reinvenção das artes tradicionais portuguesas. Já aconteceu com o bordado, com a edição Rose Couture, e com o burel, com a coleção Burel Couture.

Enquanto recorrem ao que se produz em Portugal, também parecem ir ao encontro da história americana. Porque lançar uma linha Rosa Parks?

As nossas coleções são criações com significado. As rosas são feitas à mão e prestam uma homenagem – mais literal – ao nome da Rosa [costureira afro-americana de Montgomery, Alabama, que, a 1 de dezembro de 1955, recusou ceder o seu lugar a um passageiro branco, negando mudar-se para as traseiras do autocarro, a zona reservada aos negros. A atitude valeu-lhe a detenção, mas marcou o início do fim das leis da segregação racial nos EUA]. Além disso, a história desta mulher é uma história de luta e de coragem. Uma mulher que contestou as regras impostas pela sociedade. É uma mulher de poder e, por isso, quisemos homenageá-la.

Podemos contar com mais lançamentos e coleções que procurem integrar história e mulheres que se destacaram pelo que defenderam? Se sim, quem serão as próximas ativistas a serem evocadas? E podem ser portuguesas?

Também podem ser portuguesas? Sempre (sorriso).

Como é ver uma fotografia da ativista e escritora feminista norte-americana Gloria Steinem a usar Josefinas? É um momento de particular orgulho?

Sim, claro. Nós, quando vimos aquelas conferências magníficas da Gloria Steinem e depois vemos que ela está a usar uma peça que foi feita com muito esforço e dedicação, por nós. Acho que é um grande motivo de orgulho.

Depois de Gloria Steinem, que emprestou o seu nome a uma coleção vossa, que outras parcerias estão a desenvolver no momento ou estão a preparar a breve trecho?

A nossa mais recente parceira foi com a designer Nova Iorquina Patricia Chang com a edição Hazel Cat. Vêm aí novidades para breve.

Para lá da diversificação dos materiais, é também notória a ampliação da oferta no tipo de calçado. As Josefinas já são também ténis ou botas. Porquê?

Começámos a Josefinas com as bailarinas: o lado icónico. Em 2015 diversificámos a nossa linha de sapatos rasos: sapatilhas, loafers, botas e slingbacks, criando, assim, o Lado B da Josefinas.

As Josefinas têm uma série de coleções e modelos que não são sabrinas.

Sim, na verdade temos os loafers, depois temos as Thelma & Louise, que são as nossas sapatilhas e temos as Twiggi, que são umas botas de cano alto.

Todas elas onde é que está aquilo que é específico das Josefinas?

Nas Twiggi, a Josefina está lá de uma maneira bem evidente. Mas mais do que uma questão de imagem, o que as liga são os mesmos pressupostos, ou seja, fazemos sempre coisas que tenham qualidade, que usam bons materiais, em que as pessoas se sentem confortáveis. São bastante versáteis e adaptam-se à mulher contemporânea, que tem de fazer tudo e mais alguma coisa, estar em todo lado e quer estar elegante e confortável. Depois os nossos modelos são sempre simples mas, de alguma maneira, têm sempre alguma coisa que as diferencia, que é mais extraordinária.

E o que podemos esperar nesta matéria para este mês de Natal ou 2017?

Não podemos revelar ainda, mas vem aí algo novo (sorriso).

Como está a correr a vossa parceria com a Women for Women, em que ajudam mulheres a desenvolver as capacidades e acederem a novos recursos?

Está a correr lindamente. Ainda esta semana ajudámos mais uma mulher em risco. Já ajudámos seis (sorriso), e estamos a caminho de ajudar a sétima.

E que projetos estão a desenvolver com o Instagram?

Acabámos de chegar aos 50 mil seguidores no Instagram, estamos radiantes e continuamos a explorar as aventuras da Josefinas.

Que razões estratégicas levaram as Josefinas à sede do Instagram, em maio último?

Foi um convite da Eva Chen, a diretora das parcerias de moda do Instagram, e houve uma reunião. Nós já tínhamos sido contactadas, aliás eles enviam-nos sempre todos os anos um presente. É uma relação que está a ser mantida e cultivada.

Esta visita do Instagram quer dizer que vai haver uma utilização mais próxima dessa rede social? O que é que foi discutido lá?

Foi discutido como é que as pessoas podem trabalhar em conjunto, é sempre bom ter estas reuniões cara a cara. As pessoas falam dos seus projetos e trocam ideias e às vezes não há um objetivo em concreto há mas é uma troca de ideias sobre o que é que as pessoas estão a fazer, a trabalhar e isso é que é a grande mais-valia.

Mas se as Josefinas agora são uma espécie de fornecedores de conteúdos para o Instagram ou a ideia é começarem a fazer anúncios no Instagram?

Não, nós vamos fazer o trabalho que temos vindo a fazer até agora, que é estarmos ligadas ao Instagram, fazemos uma utilização da aplicação diária. Continuar a alimentar o contacto com as pessoas que gostam das Josefinas. No fundo, é trabalhar esta relação.

As Josefinas usam o Instagram só como plataforma de divulgação da marca ou usam também como plataforma de inspiração?

Também é plataforma de inspiração, porque o Instagram é uma base de dados muito interessante. Um exemplo disso é eu ter descoberto um ilustrador muito engraçado que é o Jean Jullien, através do feed do Instagram. Há muitas coisas que eu já conheci porque existe Instagram. É uma plataforma muito boa para conhecer novos talentos e uma maneira bastante simples de comunicar com os outros e fazer um trabalho consistente. Há uma facilidade de comunicar, de divulgar, de expor.

Estou obrigá-la a falar das estratégias, mas a Filipa é a criativa das Josefinas.

Eu não sou dessa parte. Eu sou a designer das Josefinas. Fui eu que comecei tudo. A Josefina é minha avó, a Maria Josefina. É daí que vem o nome da marca. Sou arquiteta de formação e por isso ligada à parte criativa. Trabalho nas Josefinas em diversos níveis: a imagem, os produtos, a produção, as amostras… faço todo esse trabalho inicial.

Como foi a génese do projeto Josefinas?

A génese a nível conceptual foi em 2012. Eu gostava de encontrar no mercado nacional umas sabrinas de qualidade, que tivessem esta particularidade de ter cordão ajustável como as sapatilhas de ballet. Ou seja, basicamente, queria uns sapatos bonitos e simples e tinha uma dificuldade em encontrá-los e por isso pensei “porque é que não crio uma marca nacional? Produção nacional, já que a produção de sapatos está mesmo aqui ao lado. E que tenha estas características.” Começou assim.

Acreditou que ia ser absolutamente concretizável, que ia ser fácil ou sentiu muitas reticências?

Não, porque eu achava mesmo que fazia sentido e que podia andar para a frente. E por isso, tentei divulgar o meu projeto. Sinceramente, não tive dúvidas. Era fazer e ver como é que ia correr, porque acho que se nós estivermos a problematizar muito sobre tudo, não conseguimos fazer nada. Nós não conseguimos controlar tudo, mesmo que queiramos, há uma série de circunstâncias… Eu sabia que só se eu tivesse alguma atitude é que essa atitude ia ter alguma consequência. Começou assim aos bocadinhos.

Em 2012 tem a ideia e depois como é que é o processo de concretização?

Eu comecei a pensar nisto em fevereiro de 2012, depois conheci a Maria em maio. E ela acreditou que era um projeto engraçado que tinha potencial e começamos a trabalhar juntas no produto das Josefinas base, o que durou cerca de um ano. Depois as coisas continuaram a crescer.

A primeira coleção é de 2013.

Começámos a vender a primeira em maio de 2013. E desde o primeiro momento que fomos muito bem recebidas no mercado nacional. E as coisas correram mesmo bem. Aliás, a primeira experiência que tivemos foi num mercado organizado pela Maria Guedes. E nesse dia vendemos Josefinas, as pessoas reconheceram logo o produto e gostaram da marca. E por isso, as coisas correram bem desde o inicio.

Referiu a mulher contemporânea. Porque é que fez a coleção Power Woman, é uma coleção absolutamente feminista?

Sim, é uma coleção que pretende dar a força às mulheres e fazer com que elas andem para a frente com os seus projetos, que às vezes saiam um bocadinho de uma zona mais resguardada ou protegida. As mulheres têm imensas capacidades e o objetivo é potenciar essas qualidades.

Preocupam-na as questões relacionadas com a desigualdade e a falta de poder das mulheres?

Sim, porque ainda não é igual. Acho que vai ser daqui a uns anos, mas ainda não é e, para vir a ser, temos de fazer alguma coisa.

Acredita que a moda pode ajudar a trilhar esse caminho?

Sim. Um exemplo simples: quando nós usamos umas Josefinas rasas e achamos que estamos elegantes. E isso pode não ser sinal de que temos de usar saltos altos ou corresponder a um pressuposto instituído.

As sabrinas elegantes podem ajudar as mulheres do mundo do trabalho, é isso?

No fundo é o conforto que é importante, as pessoas têm de se sentir bem. Noutro dia estava a ver o filme sobre a Coco Channel, no qual ela começa a usar aquelas roupas mais confortáveis, deixando cair os corpetes por se sentir completamente desconfortável. E acho que isso é muito importante: estarmos e sentirmo-nos bem com aquilo que estamos a usar. Não quero dizer que isto seja verdade para todas as pessoas, mas é o que faz sentido para as mulheres que me rodeiam, para as que compram Josefinas e para as que aqui trabalham. Nós sentimos que queremos estar bem, mas confortáveis.

A Filipa e a Maria são duas mulheres, são duas empresárias. Sentiram dificuldade em implementar o negócio pelas questões do género?

Não posso dizer que nós tenhamos sentido dificuldades por questão de género. Agora que isso existe, está à nossa volta e toda a gente sabe que tal acontece. Mesmo a nível de remuneração salarial. Há mulheres que fazem exatamente o mesmo trabalho, ou até mais do que os homens, e só por uma questão de género estão a receber menos. Isso não é justo.

Imagino que na empresa Josefinas isso não aconteça.

Não. Nós só temos um homem, mas há pouco tempo.

E recebe o mesmo para a mesma função?

Sim, não há uma distinção nem para um lado nem para outro. Nós não queremos que isso aconteça.