“Quero que me reconheçam por ser campeã e não uma miúda gira”

Entrevista a Patrícia Mamona

Texto: Cátia Carmo | Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens

2016 está a ser o melhor ano da sua carreira. Não trouxe uma medalha dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, mas sagrou-se campeã europeia de triplo salto e ficou em sexto lugar no Brasil, entre os melhores do mundo. Entretanto, iniciou carreira no mundo da moda e como apresentação de televisão no Fama Show, da SIC, além de frequentar o curso de Engenharia Biomédica. O segredo? Acreditar e trabalhar. Lições de vida de uma atleta de luxo.

Patrícia Mamona, de 28 anos, passa os dias treinar para estar em boa forma nos mundiais de atletismo do próximo ano e brilhar nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Em entrevista ao Delas.pt recorda o que sofreu em criança por causa do apelido Mamona, confessa já estar habituada aos piropos e sublinha que quer ser recordada como uma campeã e não por ser uma menina bonita.

Como é que isto tudo começou?
Comecei por volta dos 13 anos. Antes disso participava em várias atividades de desporto escolar, mas foi aos 13 anos que comecei a competir pela Juventude Operária Monte Abraão (JOMA). Fazia desporto puramente por gosto. Hoje também o faço por gosto, mas ao nível a que estou tive de mudar de clube para ter melhores condições. Foi aí que me mudei para o Sporting Clube de Portugal. A minha família não queria que eu praticasse desporto porque estavam com medo que interferisse com a escola. Então comecei a treinar sem autorização dos meus pais mas mais tarde, quando me federei, precisei de autorização e a partir daí eles apoiaram-me sempre durante toda a carreira. Antes de eles aprovarem cheguei a fugir de casa para ir treinar com os meus colegas.

E o triplo salto?
Sempre gostei de saltar e desde muito nova percebi que tinha potencialidades. Na altura, o mais importante era ganhar. Não tinha muita noção do que era ou não um bom recorde. Mais tarde é que se tornou mais importante, principalmente pelo facto de pensar que não existia nenhuma rapariga em Portugal que tivesse feito melhor do que eu. Isso para mim era, e ainda é, um motivo de grande orgulho. Agora, como já atingi outro patamar, tenho sempre tentado evoluir pessoalmente. Sei que quando bater um recorde meu será um recorde nacional, isto se não aparecer ninguém que o bata, mas o meu objetivo é sempre bater o meu próprio recorde, superar-me como atleta e às minhas próprias capacidades.

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Gravámos um pequeno vídeo em que Patrícia Mamona se apresenta. No fundo é uma brincadeira que apanha a atleta num registo mais descontraído. Este é um lado informal a que as pessoas estão menos habituadas a ver uma campeã que enche o País de orgulho.

O apelido da Patrícia já foi alvo de comentários e piadas. Sempre foi assim?
Quando era pequena sofri um pouco porque gozavam e eu não conseguia responder, ficava com muita vergonha, era constrangedor. Depois comecei a crescer e com cerca de 12 ou 13 anos tinha percebido que este era o meu nome e tinha de estar orgulhosa disso. O meu próprio pai explicou-me o significado do nome. Mas havia sempre momentos constrangedores. Quando ia ao hospital, por exemplo, e diziam o meu nome alto eu levantava-me e ficava tudo a olhar.

Mas agora, que muitos a conhecem, já não é assim, pois não?
Não, agora sabe bem. As pessoas habituaram-se.

Em 2008 foi para os EUA estudar Medicina. Por que decidiu optar por este curso?
Por gosto e por ter potencialidades para as ciências. Sempre quis uma profissão que estivesse relacionada com biologia e química, que era onde tinha as melhores notas. Ter uma mãe enfermeira, de certa forma, deu-me um boost para seguir essa carreira. Já tinha entrado em Medicina cá em Portugal. Entretanto fiz lá algumas cadeiras, quando quis regressar não tive equivalências cá e comecei a tirar o curso de Engenharia Biomédica, que também tem um pouco de Medicina mas mais de engenharia, há mais matemática e física, o que me tem agradado muito.

Por que decidiu ir para os EUA e não ficou em Portugal?
Em Portugal não conseguia treinar. Não tinha transporte próprio, tinha de andar de transportes públicos e demorava cerca de duas horas a chegar à faculdade. Saía de casa de manhã, chegava a casa à noite e não tinha tempo para treinar. Tinha de optar entre o desporto e os estudos. Na altura escolhi a escola e deixei o desporto de fora. Foi nessa mesma altura que recebi o convite para ir para os EUA e fui. Lá conseguia fazer as duas coisas porque os programas são feitos mesmo para os estudantes conseguirem ser também atletas, fazerem as duas coisas e terem sucesso a nível escolar e desportivo.

Em Portugal isso ainda não é uma realidade?
Não. Já há muitas áreas em que dá para conciliar as duas coisas, mas na maioria delas os atletas têm de fazer opções. Há atletas cá que talvez consigam acabar o curso de Medicina, mas durante quatro ou cinco anos não podem apostar tanto na vertente desportiva. Na altura para mim não dava mesmo para conciliar as duas coisas e apareceu essa oportunidade de ir para os EUA, onde conseguia fazer tudo. Não queria mesmo acabar a minha carreira como atleta.

A adaptação aos EUA foi difícil?
Nos primeiros dois meses, por causa da língua. De resto foi tudo muito pacífico e muito fácil. Arranjei logo grandes amigas, vivia num apartamento em que as pessoas já estavam habituadas a conviver com estrangeiros. Adaptei-me rapidamente.

Por que decidiu regressar a Portugal e não ficou por lá?
Queria continuar a minha carreira como triplista e o triplo salto é uma modalidade ainda muito fraca nos EUA, se queria continuar a evoluir não podia ficar lá. Em Portugal consegue-se treinar o triplo salto em específico, ao contrário dos EUA, onde isso ainda não acontece, não sei porquê. Na altura até pensei voltar à Medicina cá. Como já tinha tido uma experiência em que conseguia estudar e treinar ao mesmo tempo pensei que já conseguisse fazê-lo em Portugal, mas entretanto não tive equivalência.

Muitas vezes as pessoas associam os desportistas a pessoas com pouca formação. A Patrícia vem contrariar esse estereótipo. Sente que esse estereótipo ainda está muito presente hoje em dia?
Cada vez menos. Eu própria tinha muito esse estereótipo, mas estava associado aos futebolistas porque eles tornam-se profissionais muito cedo na carreira e têm de optar entre continuar os estudos e o desporto. No entanto, no meu desporto e em muitos outros isso já não é tão rígido, consegue-se fazer as duas coisas. Como o futebol é tão mediático e os outros desportos não, às vezes até fica a ideia de que a realidade do futebol se estende aos outros desportos, o que não corresponde à realidade. Há cada vez mais atletas de topo, a nível mundial, que conseguem fazer as duas coisas. Talvez nem todos consigam, como os restantes estudantes, fazer a licenciatura em três ou quatro anos, provavelmente precisam de mais tempo porque têm de conciliar e isso implica também abdicar de algumas disciplinas e de algum tempo, mas conseguem acabar a carreira académica e construir uma boa carreira desportiva. Cada vez mais esse estereótipo está a desaparecer.

Em Portugal ainda se dá demasiada importância ao futebol?
Ainda se dá muita importância ao futebol, é o desporto rei, mas essa importância tem vindo a diminuir. É normal, todos os países têm um ou dois desportos-rei de que as pessoas gostam mais, que geram mais dinheiro e mais financiamento. Por isso, de certa forma, conseguem ter mais mediatismo. Agora com os Jogos Olímpicos, nos últimos anos tem-se apostado muito noutros desportos, para que as pessoas possam conhecer outras coisas para lá do futebol. Pelo menos nestes últimos quatro anos tem sido um bocadinho assim e aumenta sempre no ano em que decorrem os Jogos Olímpicos. Daqui para a frente vamos ver que destaque teremos até aos próximos Jogos. Este ano foi a segunda vez que participei nos Jogos Olímpicos e senti que no ano da competição estamos todos no topo do mediatismo e depois, nos três anos seguintes, ninguém fala de nós nem têm a mínima ideia do trabalho que fazemos e do nosso percurso até aos Jogos. Espero que isso mude um bocadinho e que continuem a dar apoio a várias modalidades porque isso também é uma inspiração para quem quer tornar-se atleta e para os miúdos que sonham ser futebolistas mas não têm jeito para o futebol. Assim conhecem outras modalidades e podem escolher ser outra coisa qualquer, para a qual tenham mais jeito. Têm de descobrir e, para isso, precisam de se sentir inspirados para praticar outros desportos.

É fundamental ter uma segunda opção para além da carreira desportiva?
Claro. O desporto é algo que não dura muito, tem um limite. O corpo fica cansado e tudo pode acontecer. Se não tivermos um plano B as coisas tornam-se mais difíceis quando o plano A corre mal. Por precaução, todos devíamos ter pelo menos um diploma que nos dê alguma segurança. Se acontecer algo drástico, que nos impeça de continuar a fazer o desporto de que nós tanto gostamos, temos onde nos agarrar. É sempre muito importante.

Já teve algumas propostas para trabalhar na moda. É uma opção para o futuro?
Neste momento não. Estou exatamente a fazer aquilo de que gosto e ainda bem. O mais importante, no meio disto tudo, é focares-te naquilo de que gostas. Talvez mais tarde, quando vir que o desporto já não está a dar-me o retorno que tanto quero ou já sentir o corpo cansado. As carreiras na moda também passam muito rápido, mas isso não me preocupa, não é o meu foco, não é o que amo, aquilo de que gosto. É bom de vez em quando, para desanuviar e ter experiências diferentes daquilo a que estou habituada, mas não é a minha paixão. Por isso, não vou apostar muito nessa área.

É possível viver-se só do atletismo em Portugal?
É muito difícil. Nós temos de viver, contas para pagar. Há pessoal que está na universidade e tem os estudos para pagar. É muito difícil chegar ao topo e conseguir ter um salário que te dá alguma segurança. Na minha opinião, essa é uma das razões para as pessoas não investirem numa carreira neste tipo de desporto, sabem que não vai dar nada. Ainda é muito complicado e isso está relacionado com o próprio mediatismo do desporto. Não temos patrocinadores, não temos marcas, não temos apoios. Às vezes, na rua, perguntam-nos quanto ganhamos e se é difícil. É difícil, mas eu tive sorte no meu percurso porque não tive de investir muito. Demonstrei, desde pequenina, ter um grande talento e tive a sorte de ter as oportunidades certas para conseguir continuar a evoluir, ter infraestruturas e investimentos sem que tivesse de sair muito dinheiro do meu bolso. O próprio atletismo é um desporto que não precisa tanto de grandes investimentos como outros desportos, como é o caso do golfe e do ténis em que precisas de viajar. Aí, o investimento tem de vir de ti, se não tiveres um pai ou uma família que possa gerir essas coisas inicialmente fica complicado. Mais tarde tens o retorno, depois de chegares a um nível mais alto, mas mais difícil do que chegar lá é ter o investimento para isso. Essa questão também está relacionada com as próprias condições do país, se tens ou não infraestruturas e atividades. O desporto escolar está um pouco esquecido, era daí que podiam vir os grandes atletas e futuros campeões, mas as crianças e jovens não estão inspirados, não têm competições e pensam que no futuro, como provavelmente o atletismo não vai dar em nada, não vale a pena estar a tentar. São muitos fatores. O meu exemplo é contraditório e vem mostrar que existe a possibilidade de estares no topo, de conseguires viver do atletismo. Neste momento só treino e consigo pagar os meus estudos com aquilo que ganho do atletismo, consigo ter uma vida estável. Por isso é possível. Têm é de surgir mais casos para incentivar as pessoas e acabar com o estereótipo de que o atletismo não dá em nada.

Quem são, para si, as grandes promessas do atletismo nacional?
A mais novinha é a Marisa Carvalho. É uma juvenil que bateu o recorde da Europa nos 100 metros barreiras. Ela treina muito e não é porque estão a obrigá-la, ela faz mesmo por gosto. O facto de fazer isso por gosto e ser uma das melhores da Europa e do mundo vai ser fundamental para que ela continue a carreira e seja uma atleta de elite. A minha aposta neste momento é ela. Agora espero que, com este mediatismo que estamos a ter, que apareçam mais crianças e jovens a praticar atletismo. Todos os dias na academia, quando vou ao treino, vejo miúdos com muito talento. Muito talento mesmo. É preciso saber explorar isso e conseguir polir esses diamantezinhos.

Que conselhos gostaria de deixar a esses jovens atletas e a quem quer vir a ser?
Têm de gostar daquilo que fazem independentemente da opinião dos pais. Claro que têm de respeitá-los, mas têm de demonstrar-lhes que é aquilo que realmente querem mesmo fazer. Nunca se esqueçam também de que têm de ter um plano B. Por isso, por favor, não deixem de estudar, é fundamental. Depois têm de conseguir arranjar uma boa equipa para terem a melhor formação. É muito importante, principalmente nas disciplinas técnicas. Essa equipa vai crescer com vocês. Mas não há nada mais importante do que fazerem aquilo de que gostam.


Representa o Sporting desde 2011. Estar ligada a um clube grande é importante?
Sim, é importante mas mais a nível de apoios. Ao evoluir, a nossa máquina precisa de coisas mais refinadas e os clubes pequenos dificilmente conseguem dar aquilo que estes nossos “Ferraris” precisam. Isso é muito importante. Depois, só o facto de estares ligada a um clube grande, também te dá maior visibilidade e garante-te apoios fora do clube. Depende muito também de pessoa para pessoa, há quem não esteja ligado a clubes grandes e consiga ser um grande atleta. No meu caso, eu tinha mesmo de optar por isso.

Nélson Évora mudou-se recentemente do Benfica para o Sporting. Já teve oportunidade de treinar com ele?
Não porque o Nelson veio para o Sporting mas trocou de treinador, está a treinar em Espanha. Antigamente chegámos a treinar juntos. Ele treinava em Portugal, o treinador era português e dava-se muito bem com o meu treinador. Fazíamos muitos estágios juntos, pré-mundiais e pré-Jogos Olímpicos. Agora, com o novo treinador, provavelmente isso já não será possível. Penso que só vou vê-lo quando tivermos competições importantes.

É fácil para uma mulher treinar lado a lado com um homem? Nunca se sentiu descriminada ou inferiorizada?
Sinceramente não sinto muita diferença no atletismo, mas provavelmente noutros desportos sente-se. A maneira de saltar dos homens também é um pouco diferente. Treinar com eles é inspirador, motivador, mas não são uma referência técnica porque a forma de saltar é diferente e os objetivos também são diferentes daquilo que nós procuramos, apesar de todos querermos saltar sempre muito. A nível psicológico é motivador, principalmente se treinas com um homem que já foi aos Jogos Olímpicos, já esteve lá no topo. É sempre bom ter um feedback desse tipo de pessoas, do Nelson, do Francis.

Quais foram as provas mais importantes da sua carreira?
Todos os anos temos um Europeu, Mundial ou Jogos Olímpicos, essas são as provas mais importantes para mim. O meu melhor resultado foi em julho deste ano, no Campeonato Europeu de Atletismo em Amesterdão, onde fui campeã da Europa e nos Jogos Olímpicos, onde fui finalista. Este ano foi o melhor da minha vida. Agora espero que os próximos sejam ainda melhores.

Como costuma ser o dia-a-dia da Patrícia?
Levanto-me às 8:30, tomo o pequeno-almoço por volta das 9:15, às 9:45 saio de casa e vou treinar. Começo a treinar por volta das 10:00, acabo o treino às 13:00, venho para casa, faço um pouco de recuperação e almoço. Depois descanso até às 16h30, porque fico super estafada do treino da manhã, e a essa hora saio de casa e vou treinar outra vez, o meu segundo treino do dia. Saio por volta das 20:00, chego às 21:00 a casa, janto e descanso para o dia seguinte. Só começo a faculdade no próximo semestre. Este ano estive parada. Quando tiver aulas, provavelmente deixo de ter os treinos bidiários e tenho uma manhã na escola. Ao fim de semana, o domingo é o meu dia de descanso, em que aproveito para fazer tudo o que gosto de fazer. Normalmente não me apetece fazer nada nesse dia, mas costumo ir jantar fora com os amigos, ir ao cinema, fazer atividades mais lúdicas.

Quando deixar a competição quer continuar ligada ao desporto?
Queria virar-me mais para a área do meu curso mas, neste momento, não consigo pensar já no futuro. Têm aparecido tantas oportunidades e tanta coisa de que tenho gostado. O meu plano A será sempre acabar o meu curso e arranjar um trabalho na área, mas nunca se sabe. Sou atleta, posso arranjar um trabalho na área ou a treinar outras pessoas se me apetecer. Há muita coisa que posso fazer. Ainda não quero traçar o que vou exatamente fazer porque é um bocado incerto. Só tenho a certeza de que quero continuar a minha carreira como atleta até o meu corpo deixar e quero ir a pelo menos mais dois Jogos Olímpicos. A partir daí, logo se vê.

Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, a Patrícia conseguiu a melhor classificação de sempre para o triplo salto feminino português. Que significado teve para si esta marca?
Foi importante, mas o triplo salto português nunca demonstrou ser uma modalidade com grandes recordes. O último recorde nacional antes do meu era muito baixo, registado num mundial de juvenis. Por isso, o facto de termos duas atletas portuguesas numa final olímpica de triplo salto foi histórico para nós. É um grande orgulho estar nos livros desta forma. Agora tenho de continuar a tentar, o meu foco já é Tóquio. Não quero sair de lá com um sexto lugar, quero mais. Se for a medalha, em que eu gosto sempre de pensar, perfeito. Se for um quinto lugar também já é bom, demonstra que me superei.

No final dos Jogos Olímpicos os atletas portugueses foram muito criticados por trazerem poucas medalhas. Isto significa que os portugueses ainda têm pouca noção do trabalho e conquistas dos atletas?
Mais do que o trabalho e aquilo que temos conquistado trata-se de disciplina. Isso acontece por causa da desinformação que têm sobre o desporto, saem da realidade porque não têm noção de como é, a disciplina que temos de ter, as capacidades e apoios que precisamos. São muitos fatores e não são todos lineares. Não é por nos termos classificado para os Jogos Olímpicos que chegamos lá e ganhamos, não é assim tão linear. As pessoas não têm noção da dificuldade de se fazer mais um centímetro, é o mesmo que eu chegar ao pé de ti e dizer que a tua mão está a 90 graus e não a 91. São coisas mínimas, a própria genética da pessoa e um pouco de sorte. Quem não está mesmo dentro das modalidades não percebe e mistura as coisas. Os portugueses associam muito o futebol ao resto dos desportos e não pode ser assim. Nós não vamos lá para perder, vamos lá dar o nosso melhor. À partida já sabemos, mais ou menos, o que vai acontecer. Não podes fazer muito mais numa competição do que aquilo que já fazes no resto do ano. O que fazes durante todo esse tempo já é o teu limite, puxas muito pelo teu corpo. Se o teu corpo não conseguir dar mais, não significa que não acreditaste em ti. É o corpo, estás a testar os teus limites. Há fatores externos que também influenciam muito, a chuva e o vento. Mas a quem faz esse tipo de comentários falta um bocadinho de formação e noção do que é realmente o desporto. Essas polémicas surgem porque põem tudo no mesmo saco.

O que sente um atleta quando ouve estas críticas?
Eu não reajo mal nem bem, sinceramente não ligo. Quando criticam só digo para experimentarem. Aí vão conseguir ter a perceção da dificuldade que é. Sei do que sou capaz, quais são as minhas capacidades e os meus objetivos. Se alguma coisa correr mal porque eu fiz mal serei a primeira a admitir e a criticar. A opinião dos outros não me preocupa muito.

Durante os Jogos Olímpicos, nos jornais, surgiram títulos como 'Patrícia Mamona encanta fotógrafos do Rio'. Sente-se uma mulher sensual?
Ultimamente tenho ouvido muitos piropos e muitas pessoas a perguntarem isso. Sinto-me uma rapariga feminina, mas que, ao mesmo tempo, está associada a um desporto que, há uns anos, só os homens faziam. Venho contrariar o estereótipo de que as mulheres que fazem desporto de alta competição parecem todas uns homens e têm corpos masculinos. É verdade que o meu corpo está um pouco mais masculino, mais musculado, mas não é por isso que deixo de ser rapariga e mulher. Isso agrada-me, consigo ser as duas coisas: competitiva e uma mulher super normal, que não gosta de usar vestidos mas gosta de se sentir mulher. Sentir-me bem comigo mesma é o mais importante. Se os outros gostarem e elogiarem, o meu ego aumenta, não vou desmentir, mas o meu foco é ser atleta. Quero que me reconheçam por ser campeã e não por ser uma miúda gira. Isso era fixe. Se me reconhecerem só por ser gira tira o propósito àquilo que faço, giras há muitas. Isso depois daqui a uns anos vai passar, quando for muito velhinha ninguém vai querer saber da Patrícia Mamona que foi gira. Se for velhinha e campeã olímpica fico para a história, nunca desapareço. Mas o mais importante neste momento é sentir-me bem comigo mesma e saltar muito.

Atualmente é também um dos rostos do programa Fama Show, da SIC. Como está a correr este desafio?
Está a correr bem. É um desafio que ao início me assustou um bocadinho, mas a própria rubrica que estou a fazer deixa-me ser eu mesma e isso é o mais importante. Inicialmente não queria aceitar o convite porque estava com medo de demonstrar algo que não sou e isso não me agrada, gosto de estar à vontade. O facto de a minha rubrica se focar em atletas foi uma das razões para eu ter aceitado o convite porque, como digo sempre, nós temos pouco mediatismo e assim talvez consigamos um pouco mais, o que pode ajudar a ganhar patrocínios, ter mais publicidade. Também sempre gostei de desafios. Desde que voltei a Portugal que um dos meus grandes problemas nos treinos é a dificuldade para sair da minha zona de conforto. Ouvia sempre o meu treinador dizer que, se queria evoluir, tinha de sair da zona de conforto. Isto ajuda-me a sair, a conhecer coisas e talentos novos. Sempre fui muito acanhada, por isso tem sido uma experiência fantástica, tenho aprendido muitas coisas que pensava que não era capaz de fazer e agora sou. Isso, de certa forma, dá-me força não só a nível psicológico, no dia-a-dia, mas também no atletismo. Depois disto, consigo fazer qualquer coisa. Não há ninguém que me possa parar. Dá-me um boost mental que utilizo no dia-a-dia.

Este ano esteve também nomeada para Atleta do Ano, um prémio que acabou por ser entregue a Telma Monteiro. Quando foi nomeada não escondeu que queria que votassem em si. É sempre assim tão direta e frontal no dia-a-dia?
Sim. Às vezes o pessoal pensa que sou fria, mas sou assim, não tenho nada a esconder. Eu queria ganhar. Tinha noção de que a Telma conseguiu algo de que já andava à procura há muitos anos e ainda não tinha conseguido obter, uma medalha olímpica. Por isso foi muito bem entregue e não há discussões, mas como era um prémio em que o público também tinha muito poder eu quis usar o meu mediatismo para conseguir mais votos. Foi nesse sentido. Claro que queria ganhar, adorava ser eleita a Atleta do Ano. Não foi este ano vai ser no próximo. Tenho os mundiais, ainda há muitos anos pela frente para poder ganhar o prémio.

Como se define enquanto pessoa?
Estou sempre à procura de mais, não me conformo. Estou sempre a pensar mais além, naquilo que posso fazer para conseguir atingir os meus objetivos. O meu lema de vida é: o que posso fazer para conseguir alcançar o que quero? Depois vou à procura das soluções para conseguir atingir.

Marcou presença no Web Summit, onde falou da importância da tecnologia nos seus treinos. Que tipo de tecnologia costuma utilizar?
Uso tecnologia todos os dias. A coisa mais básica é ter um telemóvel a filmar os treinos ou uma Go Pro, não só para saber a quantidade de saltos que ando a fazer mas também para ajudar a nível técnico. Quando estou à procura de centímetros todos os detalhes são importantes.

Depois vê os vídeos?
Não vejo. Há um biomecânico que tem esse trabalho e me diz exatamente a velocidade a que entro, se tenho ou não de entrar mais rápido na chamada, se tenho de levantar menos os joelhos ou onde tenho de fazer ângulos de 90 graus. São coisinhas mínimas que no fim, se conseguires mudar, consegues ganhar um ou dois centímetros em competição. Depois é repetir isso várias vezes porque depois, em competição, torna-se automático. Quando estou a fazer musculação uso uma máquina que consegue medir exatamente a velocidade e a potência dos exercícios de musculação que estou a fazer. Cada vez que faço um exercício aquilo dá-me um valor. Imagina que num exercício me deu 10. No próximo tenho de tentar fazer 11 e no seguinte 12. Isto dá-me motivação, queres sempre fazer mais e não há margem para argumentos. Uma pessoa consegue comparar e perceber o nível de cansaço. É uma motivação em cada exercício, em cada coisa que fazemos. No fim da tua época queres pensar que deste o teu melhor e fizeste tudo direitinho. Se correu mal não foi porque quiseste ou fizeste as coisas mal, foi simplesmente porque correu mal. Tiveste menos sorte naquele dia porque estava vento ou a chover. Mas mentalmente estás descansada porque fizeste o que podias para conseguires alcançar o teu objetivo. Temos também plataformas de força que medem a força com que embatemos no chão. São tudo ferramentas que usamos no triplo salto. O meu treinador e o biomecânico ajudam-me a perceber a física, é muito à base disso que temos de trabalhar porque nós não somos todos iguais e eu não sou a triplista típica, alta e magra. Por isso tenho de conseguir arranjar alternativas para contrapor aquilo que sou. Se não conseguimos ser altas, por exemplo, temos de conseguir ser rápidas ou se não conseguirmos ser magras temos de ser fortes, robustas, rápidas e reativas. Tenho de conseguir contrabalançar tudo para conseguir o meu objetivo: saltar muito, mais do que as outras.

Há muito mais ferramentas do que há 20 anos. Isso torna a vossa tarefa, enquanto atletas, mais fácil?
Não torna mais fácil, mas torna mais nítida. Conseguimos competir ao nível dos outros lá fora porque eles também têm e já têm há muito tempo, nós só começámos a ter agora. Em Portugal sempre fomos muito bons em corta-matos e maratonas mas em disciplinas técnicas, onde são mais necessários este tipo de apoios, a evolução só se está a dar agora. Os outros têm e nós, para estarmos no mesmo patamar, também temos de ter, visto que isso é legal. Há atletas que usam outras coisas que não são legais, mas não quero ir por aí porque não quero ser banida por isso nem faz bem à saúde. Psicologicamente deve ser horrível saberes que ganhaste uma competição por causa de uma cena que tomaste, não é mérito teu.

Para o ano, quais são os seus objetivos?
Tenho os Campeonatos da Europa de Pista Coberta. Quero arrecadar mais um título, mas é mais um objetivo pessoal porque os campeonatos de pista coberta não são muito importantes em relação às provas de ar livre porque não têm disciplinas olímpicas nem as condições normais de competição. Não há vento nem muitos outros fatores, mas a título pessoal são importantes. Depois tenho também os Mundiais ao ar livre, em Londres. Para nós, um Mundial é como se fosse os Jogos Olímpicos sem as outras modalidades. Estão lá os melhores do mundo e é uma oportunidade de conseguir uma classificação melhor do que aquela que consegui nos Jogos Olímpicos. Em 2018 tenho mais um Europeu, depois tenho um Mundial e, por fim, os Jogos Olímpicos.

Qual é o segredo para um grande salto?
Não ter medo e arriscar um pouco. O triplo é uma disciplina que quando, por vezes, sais da zona de conforto acabas por estragar tudo porque ficas mais tensa ou a pensar demais. É chegar lá, não ter medo e saltar de coração.